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06/04/2009
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Crise econômica traz mudanças para o RH

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Nos últimos anos, o cenário organizacional tornou-se palco de uma grande transformação que atinge a todos: empresas e profissionais dos cinco continentes. Mesmo quem acredita que está "fora" desse turbilhão de inovações, nem imagina o quanto está envolvido nesse contexto mundial. Afinal, o que atinge o mercado é sentido no bolso de qualquer um, não importa a profissão, o local onde resida e tampouco o fato de que o indivíduo tenha uma vida considerada economicamente estável. Os efeitos podem não ser sentidos de imediato, mas acabarão manifestando-se em determinado momento.

Em recente pesquisa realizada pela professora da Fundação Dom Cabral e PUC Minas, Betania Tanure a necessidade de promover redução de custos nas organizações, a possibilidade de demitir funcionários e as ações que serão adotadas pelos órgãos governamentais brasileiros são os principais fatores que preocupam os dirigentes organizacionais. A "Pesquisa Crise e Transformação", conduzida por Tanure e realizada recentemente, constatou que 50% dos entrevistados apontaram que a redução do quadro funcional no nível operacional e técnico está em fase de decisão, implementação, já é uma realidade ou ainda não foi implementada. "Os presidentes afirmaram que precisarão adequar suas estruturas, moldadas a outra realidade", afirma a professora, ao mencionar que público consultado durante o estudo espera um cenário negativo para os próximos meses.

Vale ressaltar que 83% dos pesquisados acreditam que vão superar a crise, através da adoção de crescimento redimensionados e fortalecidos. Em entrevista concedida ao RH.com.br, Betania Tanure enfatiza o que ocorrerá com a área de Recursos Humanos, durante esse período delicado que o mercado enfrenta. Confira a entrevista na íntegra e boa leitura!

RH.com.br - No período de novembro a dezembro de 2008, a Sra. conduziu a pesquisa "Crise e Transformação", que tem sido realizada desde 2000. Qual o principal objetivo do seu trabalho?
Betania Tanure - O principal objetivo da pesquisa é o de mapear as principais preocupações dos executivos - tanto como uma foto, ou seja naquele momento, e como se fosse um filme - comparando ao longo dos anos. Isto permite compreender melhor as necessidades, as angústias, as ansiedades e as expectativas das pessoas nas organizações e, dessa forma, ajudá-las de forma mais efetiva. Além disto, o "retrato" que as pessoas vêem, através desse trabalho, pode também contribuir para o processo de auto-ajuda com todo o desgaste que esta expressão tem nos dias atuais.

RH - Qual a metodologia adotada e o universo pesquisado?
Betania Tanure - Realizamos uma pesquisa qualitativa e quantitativa. Para isso, consultamos 532 comandantes de companhias no Brasil. Dessas organizações, cerca de 30% tinham um faturamento acima de 5 bilhões de reais. Vale destacar que 85% dos executivos afirmaram que a crise surtirá um impacto negativo ou muito negativo nos negócios.

RH - Quais os dados mais relevantes que a pesquisa apontou?
Betania Tanure - Ao longo dos anos que realizamos esse estudo contatamos uma constante preocupação dos profissionais em relação ao equilíbrio, ou a falta dele, entre vida profissional e pessoal. Porém, no momento da crise como este que vivenciamos, observamos que esta preocupação deixou subitamente de existir. Interessante não? Além disto, no decorrer dos anos as questões de interesse individual passaram a ter mais relevância do que as questões de natureza organizacional. Isto é um ponto importante de reflexão, pois é um dos frutos dos movimentos dos modelos de gestão.

RH - O resultado desse trabalho a surpreendeu, ou já era esperado?
Betania Tanure - Sinceramente não me surpreende fortemente. Contudo, quantifica uma percepção que adquiro na medida em que convivo cotidianamente com essa realidade vivida pelas organizações no país.

RH - A crise mundial foi apontada pela pesquisa como uma das grandes preocupações dos executivos. Isso acarretará significativas mudanças na área de RH?
Betania Tanure - Com certeza as mudanças virão. O mindset das pessoas - valores que determinam como os indivíduos interpretam e reagem a determinadas situações - já estava modelado para um ambiente de crescimento vigoroso onde a "guerra" era conseguir atrair pessoas e reter, quase que a qualquer preço. Os jovens estavam fazendo movimentos de carreira super-rápidos, antes mesmo de completar alguns ciclos importantes para o futuro. Ou seja, o mundo mudou e é preciso mudar por inteiro também.

RH - Em que item a área de Recursos Humanos poderá ser mais prejudicada, quando levamos em consideração a crise mundial?
Betania Tanure - Podemos considerar que esse é um teste de prova para as empresas em relação à sua verdadeira filosofia de Gestão de Pessoas.

RH - Quais os conselhos que a Sra. pode dar para os profissionais de RH enfrentarem a crise sem grandes complicações?
Betania Tanure - De forma simples, bem objetiva: não lute contra a crise mundial, mas sim lute com ela. Isso é prudente, é uma ação estratégica.

RH - Diante da crise mundial, quais as suas expectativas para o mercado e consequentemente para a área de RH?
Betania Tanure - Espero que consigamos fazer uma depuração do discurso e ter maior consistência entre o "tão bacana" e o sofisticado discurso sobre as pessoas e a pratica. Falar e não fazer, é algo que não deve ocorrer em qualquer situação e em um momento de crise como esse, está fora de cogitação. Neste momento será preciso separar o joio do trigo, manter os mais competentes e depois administrar a competição interna.

Afinal, como começou a crise? - No segundo semestre de 2008, a quebra declarada através do pedido de concordata do Lemanh Brothers - um dos maiores bancos de investimento dos Estados Unidos foi o sinal de alerta para toda a economia mundial e um fato concreto de que o colapso atingiria a todos. O reflexo veio logo em seguida, quando outros bancos e os governos que adotam o sistema capitalista realizaram uma espécie de operação para salvar o sistema bancário.
O FMI (Fundo Monetário Internacional) revelou em seu relatório de outubro de 2008 que as economias industrializadas seriam seriamente golpeadas. Para a zona do euro, por exemplo, o crescimento seria de 1,3% em 2008 e se estima que será apenas de 0,2% em 2009. Para esse ano, a expectativa dos especialistas é que o Japão cresça cerca menos de 1%. Nos EUA a demanda interna é duramente afetada.

No Brasil - Em fevereiro, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, afirmou que as expectativas das autoridades governamentais eram de que em março, o mercado nacional apresentasse sinais visíveis de recuperação em relação à crise econômica mundial. Na oportunidade, os economistas contataram que o mercado nacional teve forte impacto com a queda do nível de atividades na indústria. Mesmo com a evidência dos dados negativos sobre o fechamento de vagas de trabalho no mercado brasileiro, oito Estados mostraram sinais de reação à crise no primeiro mês de 2009. Os "resistentes" são as organizações que atuam nos segmentos agropecuário e serviços. A reação está presente nas Regiões Sul e Centro-Oeste do país.

Palavras-chave: | inovação | Betania Tanure | Fundação Dom Cabral |

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