Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

Onde existe a presença humana também estão presentes dúvidas que reportam as mentes a questionamentos que nem sempre a lógica e o pragmatismo conseguem responder. Hoje, ao invés de verem as pessoas apenas como meios de produção - que necessitam ser direcionados por uma lista de conceitos, determinações corporativas -, as empresas observam no homem algo muito mais valioso.
O profissional revela a capacidade de discernir o certo do errado, a necessidade de se sentir produtivo, de acreditar naquilo que faz e, com isso, estimular em si próprio habilidades que influenciem o desempenho das suas atividades. Não que apenas a empresa assim o deseje, mas porque dentro da estrutura humana encontra-se uma força que move cada indivíduo - chamada motivação. Por isso, um tema tem conquistado cada vez mais espaço no meio organizacional: a espiritualidade.
Base para muitas contradições entre as pessoas, a espiritualidade tem sido foco de debates e de muitas conversas no meio corporativo, afinal quase sempre surge no "ar" uma pergunta: "Afinal, qual o verdadeiro significado da espiritualidade organizacional?". Para responder essas e outras questões, como também trazer à tona fatores diretamente relacionados a esse assunto, o RH.com.br entrevistou o consultor, palestrante e teólogo, Roberto Kerber. "A religiosidade é apenas uma das partes ou elementos da dimensão espiritual, outros elementos são: fé, mística e religião, lembrando que religiosidade e religião são coisas distintas", salienta ao ser indagado se esse tema confunde as pessoas. Essa entrevista é uma ótima chance para reflexão. Aproveite a leitura!
RH.COM.BR - A espiritualidade é uma necessidade indispensável à vida humana?
Roberto Kerber - A espiritualidade não é algo que se possa optar em ter ou não ter, em querer ou não querer, necessitar ou não como, por exemplo, necessitamos de oxigênio para respirar e permanecermos vivos. A espiritualidade é própria do espírito que é parte integrante de todo o ser humano, porquanto é formado de corpo, alma e espírito. Todos a têm pelo simples fato de existirem. A questão é justamente esta, querer ou se dispor a desenvolver esta dimensão intrínseca ao próprio ser. Assim como buscamos desenvolver o intelecto ou o próprio corpo físico cujas finalidades e benéficos conhecemos bem. O motivo, a razão de desenvolvermos a dimensão espiritual, pode se resumir assim: a espiritualidade nos leva a transcender além da nossa limitada capacidade perceptiva pela razão - psique - e além de nossa massa bruta material ao ponto de perceber valores que deem sentido a vida.
RH - Quais os fatores que diferenciam a espiritualidade de religiosidade?
Roberto Kerber - Comparando com o corpo físico, ao buscarmos uma academia para trabalhar uma condição específica do corpo, como fortalecer a musculatura das pernas, por exemplo, não estaremos fazendo isso de modo a separar as pernas do corpo para desenvolvê-las. Assim ocorre com a religiosidade, que é o necessário sentimento afetivo e íntimo de estarmos ligados a algo distinto e transcendente do próprio ser. É uma necessidade permanente em busca de penetrar o misterioso. A religiosidade é apenas uma das partes ou elementos da dimensão espiritual, outros elementos são: fé, mística e religião, lembrando que religiosidade e religião são coisas distintas. Difícil, senão praticamente impossível é falar de espiritualidade em desconexão com religiosidade. A espiritualidade é o todo e a religiosidade é o elemento da nossa dimensão espiritual que nos remete em busca de penetrar o mistério da nossa vida.
RH - A compreensão sobre espiritualidade nas organizações ainda possui uma compreensão errada?
Roberto Kerber - Não diria que há uma compreensão errada sob o aspecto de vantagens, por exemplo, pois não há quem duvide do valor de alguém espiritualmente maduro em buscar forças para enfrentar as situações do dia-a-dia. Entretanto, o que se nota é um desconhecer sobre o assunto de quem pretenda investir nisso em sua corporação, além de certo medo, pois falar de espiritualidade nos remete imediatamente a religiões, a orações, a templos, a ritos. E o que gestores menos querem é transformar a empresa e o ambiente de trabalho em um templo religioso ou local de orações, e nem há necessidade. Embora algumas organizações até o façam, o que não é problema, vai depender do grau de espiritualidade e de quem pertença à determinada religião de seus diretores e colaboradores. Sabemos que há empresas onde os colaboradores param em determinados momentos do dia para práticas espirituais. Isso depende da importância do conhecimento e da maturidade com que encaram este assunto.
RH - Que fatores contribuem para que as pessoas tenham essa visão equivocada sobre assunto?
Roberto Kerber - Para quem estiver interessado ou pensa em investimentos nessa área, é abrir-se ao conhecimento, sem preconceitos e sem medo. Pois, como diz o velho ditado bíblico-popular: ninguém dá o que não tem. E o conhecimento sobre isso, deve ser buscado de forma séria e profunda. E ressalto que se tenha muita atenção quanto a isto, uma vez que a espiritualidade como vimos é parte intrínseca do próprio ser e estaremos mexendo com uma dimensão muito íntima e pessoal, nossa e de cada colaborador. Sabemos que nos equivocamos com facilidade sobre as coisas que desconhecemos. Uma vez superado o desconhecimento, podem buscar crescimento nesta área com resultados surpreendentes. Para cada um e para a empresa como um todo.
RH - Quais os princípios fundamentais da espiritualidade nas empresas?
Roberto Kerber - Ao se trabalhar a questão da espiritualidade, uma dimensão íntima daqueles que são gestores e colaboradores, ou seja, a dimensão humana que forma a empresa, logo o princípio fundamental é descobrir e identificar valores, além de buscar trazê-los para o dia-a-dia de sua vida. Por princípio, a consciência é a capacidade que a nossa inteligência tem de julgar acerca do valor moral dos próprios atos. Todo ser humano pergunta-se em cada situação concreta, qual é a forma de agir correta, o que deve fazer aqui e agora; e toda a sua ação é uma resposta ao sentido que consegue captar naquela situação. A pessoa espiritualizada quando julga cada circunstância de vida e cada ato seu a luz da lei moral, procura sentido nisso e essa busca de sentido é facilitada e concretamente realizável. E tudo o que se realiza com sentido torna a pessoa mais feliz.
RH - As empresas estão dando uma abertura gradual à espiritualidade?
Roberto Kerber - Ainda não encontrei elencadas as razões desta abertura ou desta busca, mas o pouco que pude apurar trata-se de um algo mais do que simples motivação. Já pude perceber em momentos onde fui procurado para falar do assunto, que todos de um modo geral estão descontentes com as práticas atuais no que diz respeito à motivação dos colaboradores. Outro aspecto interessante é a questão do estresse, dos afastamentos do trabalho relacionados com problemas psicossociais, psicoemocionais, psicossomáticos e até psicopatológicos. Estive em contato com uma empresa, que no decorrer de um ano encaminhou para atendimento psiquiátrico com internação, sete de seus colaboradores sendo que quatro eram lideranças. A quantidade pode parecer pequena em um universo de mil colaboradores. Entretanto, devemos ter em conta que para chegar a este ponto, há uma situação real que merece uma atenção melhor. E todos estavam no local de trabalho quando entraram em surto. O que já seria uma boa razão para esta abertura.
RH - Que diferenciais e benefícios o estímulo à espiritualidade gera às empresas e aos profissionais?
Roberto Kerber - Pessoas espiritualmente maduras tendem a ser emocionalmente e psiquicamente mais equilibradas, mais felizes e mais dinâmicas. Isso porque com maior facilidade vão encontrar sentido em cada situação. A empresa que investe com esta finalidade, pode com segurança tentar alcançar uma qualificação como, por exemplo, ser "Melhor Empresa para se Trabalhar" e o reflexo disto no mercado é altamente positivo. Analistas independentes estudaram o desempenho financeiro a partir das companhias eleitas como as Melhores para se Trabalhar na América, dentre as citadas entre as "100 Melhores Empresas" da Revista Fortune, desde 1998. Diversos tipos de indicadores de rentabilidade informam que as empresas listadas entre as 100 Melhores com ações negociadas em bolsas apresentaram uma performance acima da média, ao longo dos dez anos de publicação. Logo, não há o que temer quando se pensa em investimentos com este foco, ao contrário, serão revertidos em bons dividendos.
RH - Por que o Sr. defende que a espiritualidade deve ser levada ao dia-a-dia corporativo e como esse processo deve ser realizado na prática?
Roberto Kerber - Simplesmente porque como já vimos a espiritualidade é parte do ser humano. Se a temos só pelo fato de existirmos, por que não desenvolver melhor? Do contrario estaríamos negando uma parte nossa. E dizer que espiritualidade é para ser vivida em igreja, é uma visão no mínimo obtusa, uma vez que ela está conosco permanentemente, inclusive no horário e local de trabalho, não dá para deixar em casa. Nem Jesus Cristo disse para fazermos desta forma, ao contrário, sempre associou os seus ensinamentos com trabalho e profissões: oleiro, agricultor, artesão, pescador, ourives, padeiro, militares, mestres e até governadores, entre outros. Na prática não há uma ferramenta ou programa capaz de despertar este sentimento em nossos colaboradores, como se faz, por exemplo, por meio de uma palestra motivacional. Isso deve ser construído com algum tempo, não é uma proposta imediata ou mediata, é um processo construtivo de abertura a partir da razão crítica, buscando entendimento de cada passo até que cada um por si possa caminhar sozinho.
RH - Quais os primeiros passos que uma empresa deve tomar, ao estimular a espiritualidade entre os colaboradores?
Roberto Kerber - Certamente que o primeiro passo é a cúpula administrativa da empresa, a direção, os gestores que devem buscar conhecer e se apropriar do assunto para posteriormente determinar como aplicar a toda empresa quanto à forma e ao conteúdo, estendendo aos demais, pois é certo o ditado: o exemplo vem cima. Ou se preferir, o próprio Jesus Cristo disse: "Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles".
RH - Quem deve estimular a espiritualidade nas companhias e como a área de RH pode colaborar com esse processo?
Roberto Kerber - A partir de um conhecimento já elaborado e formado em suas consciências, chefias e lideranças, pois na realidade são estes os maiores interessados em terem times de bem com a vida ou felizes. Com o apoio certamente de um teólogo sério, pois que a priori seria a pessoa indicada para conduzir este processo, que ressalto se mal conduzido poderá não ter um resultado adequado. O RH pode ajudar no sentido de conhecendo o público-alvo, melhor determinar as diretrizes a serem aplicadas em conjunto com quem for trabalhar e orientar este projeto. Inclusive poderá valer-se de informações deste mesmo setor, para uma vez implantado um programa de trabalho, avaliar seus resultados práticos, por exemplo, quanto ao número e os motivos dos afastamentos.
RH - Existem estudos que comprovem os benefícios que a espiritualidade traz às pessoas?
Roberto Kerber - Existem sim, embora recentes, mas muitos deles, realizados em hospitais universitários dos Estados Unidos, da Europa e até de Israel, e já publicados em jornais e revistas científicas, que comprovam a eficácia de práticas espirituais em casos de curas inexplicadas ou uma sobrevida maior em pacientes terminais. Assim, como a medicina neurológica já determinou um ponto no cérebro humano que estão chamando de The God Point - "O Ponto de Deus", e experiências recentes estariam revelando que neste ponto especificamente do cérebro humano, o tálamo, é realizada a nossa relação com Deus. As reações medidas ali como, por exemplo, a reflexão de Salmos e o canto de hinos religiosos especialmente em gregoriano ou a participação em missas ou momentos de reflexão sobre a palavra de Deus. Há alterações físicas visíveis, como o aumento do tálamo. A genética, por sua vez, a partir do "Ponto de Deus" no cérebro também está avançando com estudos bastante recentes. Em 2005, o geneticista norte-americano Dean Hamer e sua equipe no Instituto Nacional do Câncer, nos EUA, declararam ter isolado um gene identificado pela sigla: vmat2, ao qual é atribuída uma função que refere à religiosidade e espiritualidade do homem.
RH - Em relação específica à área de RH, existem registros de trabalhos direcionados à espiritualidade organizacional?
Roberto Kerber - Quanto à área de RH, a primeira vez que se tem notícia de uma tentativa de propor a espiritualidade no ambiente de trabalho, remonta a um congresso de psicologia promovido pela American Psycological Association, em Montreal, no Canadá, no início da década de 70, em um dos simpósios sobre "logoterapia e administração de empresa". Administradores americanos aproveitaram a novidade para trabalhar a motivação dos empregados baseando-se na vontade de sentido, e concluíram: toda a problemática relacionada com o trabalho só pode ser modelada e compreendida, se partir do princípio de que o ser humano busca em todas as coisas - e, portanto, também no trabalho - uma finalidade, um sentido. A vontade de sentido segundo o psicanalista vienense Viktor Frankl, diz que a autotranscendência tem na vontade de sentido seu aspecto fundamental como eixo do existir humano. Ou seja, o homem busca em sua transcendência algo a que serve ou a que ama. E como vimos espiritualidade é transcender de si mesmo.
Palavras-chave: | Roberto Kerber | espiritualidade |



