Por Pedro de Souza Filho para o RH.com.br 
O dia-a-dia organizacional vem sendo povoado por um número cada vez maior e diversificado de atores, cada um deles com suas expectativas, valores, dinâmicas e interesses próprios, muitas vezes contraditórios e incompatíveis quando comparados entre si.
Parece não haver mais dúvidas que um novo modelo de organização está nascendo e não mais orientada por uma racionalidade predominantemente instrumental que enxerga tudo pela ótica da lógica, de modo segmentado, hierárquico, parcial, focando exclusivamente as questões da produtividade crescente e do aumento incessante dos lucros. É hora de praticar e aprimorar formas diferenciadas de organização e estruturação do trabalho que não mais limitem a criatividade e a inovação neste contexto de crescentes e complexos desafios.
A força crescente de novos atores
Para adquirir a necessária mobilidade, flexibilidade e permanecer viva na teia ou rede das complexas dependências e influências, a organização precisa aprender a lidar com a multiplicidade e variabilidade de atores que emergem ou se reestruturam neste novo cenário. São pessoas, entidades, instituições, movimentos, que têm algo investido na organização e algum tipo de interesse por ela. Logo, tratarão de influenciar as suas decisões, estratégias, formas de gestão e atuação.
Os atores mais conhecidos que hoje dominam o contexto de atuação das organizações são os acionistas, os conselhos de administração, os empregados ou colaboradores, as equipes de trabalho, os fornecedores, a sociedade e o governo. Mas não há limites na quantidade desses atores ou agentes que podem surgir nestes novos tempos e depositar alguma forma de interesse ou expectativa numa organização.
Assim, podemos acrescentar a essa lista os representantes dos movimentos sociais emergentes (defendendo os direitos dos marginalizados e excluídos e lutando pelo resgate da cidadania), os movimentos ecológicos (sejam locais, regionais, nacionais ou internacionais ), a globalização e até mesmo as gerações futuras.
O ponto chave na idéia do conjunto de novos atores parece residir no fato de que eles próprios definem seus interesses ou suas apostas na organização, procuram envolver as comunidades (ou novos parceiros) em suas causas e formam alianças cada vez mais poderosas. Isso implica que não é mais somente a organização - do ponto de vista de seus acionistas e conselheiros de administração - que define isoladamente a sua missão, visão, valores, estratégias e formas de atuação. Ela precisa considerar, nesse processo, a dinâmica das expectativas, desejos, aversões, crenças, valores e os diferentes graus de influência dos atores participantes ou envolvidos em seu contexto de ação.
Isso muda muitas coisas. Como definir a missão e a visão mais adequadas e compatíveis com os interesses particulares ou associativos de seus diversos agentes e parceiros? Como captar, contratar e remunerar a plêiade de profissionais necessários a todas essas demandas e especializações que representam? Como construir parcerias saudáveis e os entendimentos necessários para isso? Como adequar valores e a cultura da organização e flexibilizar os seus processos, de modo a ser possível a realização dos ajustes contínuos exigidos pela dinâmica e evolução dessa rede de novos agentes? Como farão as organizações para integrar as distintas expectativas, necessidades, desejos, aversões, prejuízos, requerimentos desses atores? Como regularão os diferentes e complexos processos ou fluxos cíclicos decorrentes, envolvendo insumos, ganhos mútuos, benefícios, obrigações, posturas?
Atender aos interesses e às expectativas de todos, de maneira articulada e diferenciada, requer profundas alterações nas crenças, nos valores e na forma de ser e atuar das organizações, bem como de seus dirigentes e profissionais. Vejamos, a seguir, uma descrição sucinta dos principais atores que povoam o novo cenário organizacional, bem como de suas exigências e progressivo poder de influência.
Ética e Responsabilidade Social
Exige-se hoje mais do que nunca um novo "ethos" empresarial. Mais do que em nenhuma outra época, as organizações têm sido chamadas para colaborarem na construção de uma nova sociedade, fundada no respeito, na cidadania, na ética e na melhoria da qualidade de vida de todos. As comunidades esperam das organizações e instituições, soluções eficazes para questões sociais inadiáveis e mal resolvidas pelas instituições vigentes, mediante parcerias ou programas sociais voltados às camadas menos favorecidas ou marginalizadas da população. Esperam também o respeito aos direitos das pessoas enquanto cidadãos e consumidores, o acesso aos serviços e bens culturais, a proteção de sua saúde física e mental e a promoção da melhoria da qualidade de vida, seja na dimensão intelectual, social, profissional, afetiva, emocional e até porque não dizer, espiritual.
As empresas, não sem razão, estão investindo em projetos e programas que atendem e harmonizam uma multiplicidade de interesses sociais. Contratam os serviços de profissionais especialistas que se dedicam a estudos e soluções de problemas sociais que estão afetando cruel e injustamente parcelas consideráveis da população. Esses novos profissionais são exímios em conceber, implementar e gerir programas sociais, cuja viabilização depende do envolvimento e do comprometimento de inúmeros outros atores, setores e áreas de atividades e que quase sempre conjugam expectativas e interesses diversos e mesmo contraditórios entre si.
Com a contratação desses profissionais e de seus serviços, as empresas esperam que projetos sociais bem conduzidos consigam elevar o nome e os índices de conhecimento e preferência de seus produtos e serviços e, ao mesmo tempo, melhorem significativamente sua imagem junto à comunidade.
Organizações "sábias" estão descobrindo que fazer o bem passa a ser importante critério para a aceitação ou a rejeição de seus produtos e serviços pela comunidade, bem como fator para a própria sobrevivência e crescimento. Por essa razão estão buscando criar e compartilhar com a sociedade e seus profissionais uma missão maior e mais nobre, muito além dos organogramas, fluxos de caixa, produção ou vendas.
Parece que, além de se constituir em enorme desafio para os executivos e especialistas e para as organizações modernas, fazer o bem, ser transparente, justo, respeitoso e honesto vem se tornando um bom negócio para todos. Além disso, o meio ambiente e a ecologia; o perfil dos profissionais de uma nova geração (muito mais parceiros de negócio do que empregados) e a globalização completam o cenário de exigências que conduzem as empresas para um novo desenho organizacional, temas que estaremos tratando na parte II deste artigo.
Palavras-chave: | Globalização | responsabilidade social |
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