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10/09/2003
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Segurança corporativa: muito além da CIPA

Por Hugo Tisaka para o RH.com.br

Muitos profissionais de Recursos Humanos ainda confundem segurança corporativa com segurança do trabalho. Recentemente, fui chamado às pressas para uma reunião em uma empresa de serviços localizada na zona sul de São Paulo. O diretor financeiro havia sido seqüestrado e os demais executivos estavam preocupados.

Felizmente, esta vítima retornou com vida e com sua saúde perfeita. No entanto, psicologicamente abalado, ausentou-se por algumas semanas. Quando retornou ao trabalho, quase não o reconhecemos, era praticamente uma outra pessoa. Posso dizer, sem chances de errar, que a vida desta pessoa mudou radicalmente. Do ponto de vista do ser humano, este indivíduo, após passar por grande trauma, refez a sua ordem de preceitos e valores em sua vida, que o levou a uma mudança em seu comportamento.

Do ponto de vista corporativo, quando ocorre um seqüestro com um executivo, isso pode significar um desastre. Existe, de imediato, a suspensão dos negócios em andamento. O moral da equipe e do restante da empresa atinge níveis estarrecedores. A estratégia montada para este segmento da organização também ficará prejudicada. Além disso, não é socialmente aceitável colocar um substituto antes do desfecho do caso e ainda por cima outros profissionais acabam acumulando tarefas, incorrendo em erros e sobrecarga de atividades. E se for necessário substituir este executivo, a contratação de um novo profissional pode envolver tempo, risco e altos custos.

Quando o desfecho é positivo, o executivo volta com outros valores pessoais, atribuindo mais importância à sua família e ao bem-estar, diminuindo consideravelmente suas horas de trabalho e muitas vezes, perdendo a agressividade necessária. Por isso, a empresa deve ainda proteger seus investidores, que são diretamente prejudicados se um incidente indesejado como este estremecer os alicerces da corporação e derrubar o valor de suas ações.

Segurança não é somente um problema, mas sim um risco para o negócio. Uma crise pode comprometer seriamente a imagem e a confiabilidade da empresa e pode estar relacionado a três grandes categorias: segurança das informações, pessoal e patrimonial.

Mas não se enganem, pois nessas três categorias o RH está envolvido de uma certa forma. Em todas elas, é necessário ter uma política de procedimentos. Não basta o departamento responsável pelo patrimônio gastar fortunas em controle de acesso, se o porteiro abre a porta para qualquer pessoa. Não adianta o departamento de tecnologia colocar barreiras em suas redes se alguém os desliga para jogar na Internet durante o plantão nos finais de semana.

Quando o mega empresário Bill Gates foi atacado por anarquistas na Bélgica, no início de 1998, sua foto apareceu na capa de praticamente todos os jornais do mundo e foi assunto de um igual número de telejornais. Pode-se imaginar a extensão do prejuízo em termos de imagem institucional. Proteção pessoal pouco tem a ver com pneus cantando e pessoas sendo arremessadas através de portas de vidro, mas sim com a avaliação de vulnerabilidade, coleta de informações para inteligência, transporte, deslocamentos, tecnologia, primeiros-socorros e apoio.

O agente de segurança também não condiz com a imagem usual do guarda-costas. Os especialistas em proteção pessoal são profissionais que participam de treinamentos especializados e que aprenderam e aperfeiçoaram esta habilidade e muitos deles usam a inteligência e não armas.

Ao protegemos alguém, não estamos oferecendo segurança somente para o indivíduo, mas também garantindo a continuidade das atividades daquela célula familiar ou corporativa. Muitas vezes, esta pessoa ocupa uma posição-chave dentro da organização e protegê-lo adequadamente impacta na missão da empresa de duas formas: (i) preserva o capital intelectual, mantendo a integridade física deste profissional; (ii) faz com que ele otimize o trabalho, sem ter que se preocupar com sua segurança pessoal, concentrando-se somente no negócio.

O que pode ser feito? Não existe uma "fórmula de bolo" que possa servir a todas as organizações, pois cada empresa tem seu modus operandi, mas oferecemos abaixo algumas dicas.

Em primeiro lugar, é muito importante lembrarmos que a sede da empresa não é um "quartel". É comum vermos organizações que resolveram adotar medidas de segurança da noite para o dia e acabam exagerando na dose. O importante é fazê-los entender o porquê da empresa estar adotando tais medidas e suas conseqüências.

Outro aspecto importantíssimo é que a adoção de uma nova Política de Segurança na empresa deve ser feita de uma maneira Top-down, significando que os dirigentes da empresa devem estar igualmente comprometidos e fazer com que seus comandados cumpram rigorosamente estas medidas.

Após o planejamento cuidadoso das ações a serem tomadas, é necessário fazer um trabalho de conscientização, para que ocorra o máximo engajamento por parte dos colaboradores. É de extrema importância, para que um determinado incidente seja rapidamente controlado e administrado. Algumas tarefas simples como definir um interlocutor para a comunicação com a Imprensa, até detalhes operacionais para manter a produção funcionando estão incluídas.

O desafio de prover proteção a esta pessoa, no entanto, é muitas vezes difícil em função da relutância em se submeter às restrições e às normas de segurança. Algumas correntes de Recursos Humanos pregam que é dever da empresa proteger este asset tão valioso. Além do lado humano, como a perda de um profissional seqüestrado, os prejuízos para a empresa são enormes.

No entanto, percebe-se que em muitas empresas, os gestores de Recursos Humanos ainda não estão empenhados nesta causa. Em geral, isso ocorre porque não conhecem o assunto. E nem poderiam. A formação destes profissionais não foi dirigida para este aspecto. Infelizmente, isto não redime a responsabilidade de buscar alternativas viáveis e tecnicamente corretas para proteger seus clientes internos.

Outro detalhe é que, muitas vezes, as organizações buscam formas alternativas e temporárias como a contratação de um policial ou de um militar. Além de ser proibido por lei, muitas das vezes eles não possuem uma estrutura para atendê-lo adequadamente. É importante que este assunto seja encarado como um dever frente à manutenção da estabilidade da organização, visto que o próprio negócio e outras pessoas dependem essencialmente de pessoas. Saiba que se esquivar destas responsabilidades e manter uma postura passiva em relação à segurança coloca a organização em sério risco.

Palavras-chave: | segurança |

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