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10/12/2007
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Governança Corporativa: vale a pena alcançá-la?

José Vieira Leite

Governança Corporativa é uma das expressões “em alta” no complexo mercado da hermética terminologia de que lança mão a Administração de Empresas dos tempos atuais. Isso significa dizer que tal expressão apresenta um espraiado e aprofundado consenso hoje existente quanto ao assunto no universo das organizações e das escolas de Administração de Empresas. A que se refere, então, a tal Governança Corporativa?

Essa ferramenta de gestão costuma ter seu objetivo definido como a maximização da efetividade das ações de gestão, com vistas à obtenção dos melhores resultados possíveis a serem atingidos, no que diz respeito à produtividade organizacional. Bacana, não é mesmo? Mas, você, examinando essa definição, consegue perceber algo de essencialmente novo nela? Não, não é mesmo?

Pois é. A quase totalidade das propostas ensinadas nas escolas, e, a partir daí, quase sempre praticadas nas empresas, reporta-se, de modo permanente, ao tema da maximização da produtividade organizacional, hoje verbalizada, recorrentemente, por intermédio do mantra empresarial “foco em resultados”. Tal mantra, de modo geral, deixa de considerar, todavia, o fato de que na produção humana – de bens e serviços, tangíveis e intangíveis – tudo, rigorosamente tudo, resulta, desde o inicio da produção, sempre, em algo, sendo, portanto, “resultado”. Trata-se de uma falsa questão, assim sendo, a partição entre “processo” e “produto”, clivagem essa tão presente na teoria e prática das formulações dominantes na Administração de Empresas da atualidade.

Todo processo contém, em si mesmo, um produto. Todo produto contém, em si mesmo, um processo.

O apequenamento da idéia de “resultados” – entendida dominantemente na atualidade como algo adstrito a lucros – impede, assim, a possibilidade da justa percepção de que processo e produto são uma única e indissociável expressão da totalidade do universo da produção.

Voltando, então, ao foco principal desse artigo, ou seja, a crítica da mesmice de proposição – ou, mais exatamente falando, da proposição do mesmo conteúdo (maximização da produtividade), travestida, porém, em uma nova forma (Governança Corporativa), na fórmula – velha de guerra – do “mudar para manter”. A proposta de Governança Corporativa, se levada à prática apenas como um instrumento de maximização da produtividade estará, inevitavelmente, fadada a um resultado pífio. Nessa ótica, fica de fora da equação o principal sujeito social da produção de tudo – inclusive da própria maximização da produtividade –, aquele que trabalha.

Ocorre que a cada momento fica menos possível excluir quem trabalha do acesso, mínimo que seja, à dimensão mais geral da produção. A aldeia hoje é global. Assim sendo, a proposição de avanços positivos quanto à Governança Corporativa demanda, necessariamente, para que seja possível um seu bom resultado, a efetiva, e, por certo, problemática, concretização de uma prática de re-inclusão do produtor de tudo – o trabalhador -, no lugar social da Governança.

O Modelo de Gestão do Trabalho denominado Qualidade de Vida no Trabalho de Natureza Preventiva revela-se um dos caminhos possíveis da efetiva concretização de tal prática organizacional. Tal Modelo, baseado nos pressupostos “Produtividade como Modo de Felicidade” e “Qualidade de Vida no Trabalho: Tarefa de Todos”, pode orientar uma prática de Governança Corporativa capaz de afastar o trabalho atual, concreta e diariamente realizado, do significado original de apenamento, castigo, pena contido na palavra trabalho¹.

O inferno e o paraíso existem, na ambiência das organizações, no espaço do aqui, no tempo do agora. E para que seja possível para quem trabalha distanciar-se da condição infernal, em direção à circunstância paradisíaca, imperativo se torna o exercício, no dia-a-dia do trabalho, daquela que, para Hanna Arendt, é a faculdade distintiva, característica, essencial mesma do ser humano, o pensar.

Uma prática de Governança Corporativa que valha a pena alcançar deve, portanto, contar, como um dos seus principais pressupostos, com a re-inclusão de quem trabalha no universo da concepção. Executar, apenas, não basta para o ser humano, já que nos é dado, a qualquer um e a todos nós, criar. Somos apelados – porque capacitados para tal –, a participar da criação do mundo, aí incluído, por certo e talvez principalmente, do universo do trabalho.

Governança Corporativa? Dois caminhos: “dividir para reinar”, segundo a velha fórmula autocrática de administração, ou, “unir para governar”, conforme o preceito inclusivo, democrático, participacionista – em uma expressão, “humanizador do homem” -, de gestão.

Qual caminho você pensa que vale a pena trilhar para alcançar a Governança Corporativa?

1 - Trabalho, do latim vulgar tripaliare, martirizar com o tripaliu, instrumento de tortura formado por três paus.

Palavras-chave: | governança | corporativa | qualidade | vida |

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