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20/07/2009
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A crise e a Terceira Inteligência

Por Floriano Serra para o RH.com.br

Há anos, através de livros, artigos e palestras, venho falando repetidamente sobre a Terceira Inteligência, que, em todos os segmentos da vida, propõe outros crivos comportamentais além daqueles da razão e da emoção. Volto a fazê-lo aqui motivado pela crise que assola o mundo e que se tornou assunto de todas as horas e justificativa para quase todas as mazelas que vem ocorrendo no planeta.

Como se sabe, essa crise econômica, a pior desde a década de 30, nasceu da ganância, do egoísmo e da falta de ética de alguns íntimos de Wall Street e que, apesar da enorme quantidade de gurus e experts em economia que surgem por aí, não foi nem de longe prevista ou imaginada, pegando o mundo de surpresa.

Um enfoque que não se costuma ler e ouvir nas análises dessa crise é de que ela nasceu exclusivamente de motivações emocionais e racionais - e por isso deu no que deu. A condição humana de ser emocional e racional é maravilhosa, mas não assegura isoladamente a paz e a evolução da raça. Quando mal direcionadas, as ações motivadas exclusivamente pela emoção buscam o prazer ou poder, ou a fuga de problemas e punições. Nestes casos, o comando para a ação - ou a falta dela - é "faço porque me agrada / porque quero" ou "não faço porque não me agrada / não quero".

Se alguém faz coisas ou toma decisões apenas porque lhe agrada ou porque quer, não haverá garantia alguma de que essa ação ou decisão será boa também para as outras pessoas, a sociedade, o mundo. Apenas refletirá ambição e egoísmo pessoal, e assim não será saudável, legal, ética, nem útil para os demais. Alguém poderá contra-argumentar: "ah, mas é justamente para evitar isso que existe a racionalidade! Se unirmos as duas inteligências, a racional e a emocional, então teremos a ação ideal, certo?". Errado.

O processamento racional do conhecimento e das informações nos conduz à ação dita "lógica" e nos induz a fazer aquilo que nos convém ou nos interessa. E não necessariamente ao que é legal, ético e saudável para as demais pessoas e comunidades - e esta crise é a grande prova disso. As grandes fraudes divulgadas foram as mais cerebrais e inteligentes possíveis, tanto que levaram um tempo enorme para serem descobertas.

Em essência, razão e emoção não têm moral nem ética, porque, patologias à parte, sua dinâmica de ação parte desse binômio: me interessa - ou me convêm -, ou me agrada - ou me satisfaz. Falta um terceiro crivo que lhe dê positivismo.

O que está faltando é a avaliação das consequências da ação ou da decisão para com o outro, seja amigo, parente, colega de trabalho, mercado, comunidade, sociedade, nações. É a este crivo, que venho chamando de Terceira Inteligência, que é a faculdade que tem o homem de sobrepor à razão e à emoção outra essência que dá transcendência às suas ações e um sentido de direção voltado para o bem-estar próprio e dos outros. Ou seja, uma postura de vida necessariamente ganha/ganha.

Esse terceiro crivo comportamental, aquele que decide a qualidade da ação ou decisão, venho chamando - na falta de melhor expressão - de espiritual, apesar de nada ter a ver com práticas e conceitos religiosos ou doutrinários, como algumas pessoas podem supor.

Essa dimensão espiritual, que infelizmente permanece em estado latente na maioria das pessoas, convive com a razão e a emoção, mas pouco interage com elas. Tem a ver com o desejo voluntário e pessoal de compartilhar o bem, pela consciência de que tanto uma família, uma equipe, uma empresa ou um bairro - quanto à sociedade e o mundo inteiro - são partes de uma grande família, o que nos torna todos responsáveis pelo que ocorre no planeta.

A Terceira Inteligência é simples assim. Ela se sobrepõe a conveniências pessoais e a interesses meramente econômicos e materiais e caracteriza suas ações, sobretudo, pela generosidade, ética e respeito ao próximo, de forma desprendida, exceto pelo desejo de ser útil. É ela que nos faz transcender ao ego, como diz o Deepak Chopra, fazendo-nos substituir a pergunta "O que vou ganhar com isso?" por "Como posso ajudar?". Há várias causas que originam crises, mas aquelas provocadas por questões de ética, moral e caráter, certamente não existiriam sob a égide da Terceira Inteligência.

Nas empresas, por exemplo, a liderança ou o modelo de gestão que se fundamentar na Terceira Inteligência, certamente terá colaboradores muito mais comprometidos, motivados, felizes e, por consequência, mais produtivos. Durante cinco anos, como diretor de RH de uma indústria farmacêutica, tive oportunidade de vivenciá-la na prática, e funcionou perfeitamente - tanto que, através de duas conhecidas pesquisas nacionais, a empresa foi eleita pelos próprios funcionários, por cinco anos consecutivos, "uma das melhores para trabalhar no Brasil".

Mas enquanto não forem mudados os critérios de sucesso e poder na sociedade e no mercado, não será fácil vender-lhes a ideia da Terceira Inteligência. Paciência. Nem por isso deixarei de continuar fazendo a minha parte, plantando estas sementes por aí. Em algum lugar, em algum momento, surgirão outros terrenos férteis e então ouviremos muito menos falar-se em crises como essa. Sonhar não custa nada.

Palavras-chave: | adversidade | emoção |

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COMENTÁRIOS (5)
Gastão Leão Neto em 05/08/2009:
Floriano, concordo com seu pensamento, principalmente no que diz respeito a "uma postura ganha/ganha". Muitas organizações realizam reuniões diárias, semanais ou mensais com foco agressivo no resultado final (lucro acima de tudo). Eu não sou em hipótese alguma contra o lucro, mas sim, não consigo concordar que a alta administração das organizações aplaudam única e exclusivamente os profissionais que alcançam seus "números", onde muitas vezes, depedram ou aniquilam seus concorrentes, clientes e os próprios colaboradores, tudo para crescer e subir rapidamente na organização. Acredito que a "ética e o respeito ao próximo", deve estar presente e dissiminado em todos os níveis de uma organização, sociedade e principalmente de nossos governantes. Abraço, Gastão

José Eduardo Leão em 27/07/2009:
Floriano, Muito interessante o seu conceito, e pertinente em todas as áreas, sobretudo na política onde impera a postura do "perde/ganha" (perdemos nós/ganham eles). Parabéns. José Eduardo Leão - professor universitário

Altair Ambrósio da Silva em 22/07/2009:
Caro Sr. Floriano Serra, Gostaria de parabenizar pelo artigo "A Crise e a Terceira Inteligência, divulgado no RH.com.br. A conclusão que tenho sobre o tema é que não restará à humanidade outra opção se efetivamente ela não aderir ao que você denominou de Terceira Inteligência. Confesso que pratiquei muito isto, onde trabalhei por muitos anos. Tive muitos sucesso, porém me tornei alvo de todos os malefícios do ser humano. Primeiro, por que segui e seguirei uma linha de trabalho voltado ao bem comum; e confesso não é facil trabalhar em prol de todos. Incluo aqui também as pessoas externas à empresa, como fornecedores, empresas parceiras, clientes etc. Percebi que me destaquei muito de outras pessoas com graduação maior que a minha. A minha responsabilidade e o respeito com as outras pessoas eram traduzidas, durante as avaliações de meus superiores, como exemplares e como referência de ética. Segundo, por que o poder de decisão mútua se torna muito mais suave e sem conflitos fora de controle, pois quando trabalhamos com o "espirito" compreendemos melhor as pessoas. Mas temos uns problemas que estão fora de controle das pessoas que praticam o que você denomina Terceira inteligência: A cúpula da maioria das empresas ainda engatinha para tornar uma empresa sólida de fato para o bem mundo; por enquanto muitos líderes insistem no imediatismo, que seria o caminho mais curto atropelando muitos seres humanos no trajeto; e no "show" de algum projeto ou resultado, apresentado por algumas "cabeças", com sérias distorções tanto técnicas quanto éticas. Temos ainda a formação de panelas nocivas que trabalham sob o nariz da cúpula que não se intrometem pois os resultados estão fluindo como projetado. E assim sucessivamente o ciclo continua com este modelo. Abraços, Altair

Fátima Holanda em 21/07/2009:
Parabéns, Floriano pelo belíssimo artigo! Um abraço Fátima Holanda

Hilda Barros em 21/07/2009:
O artigo dispensa qualquer comentário, e sim muita reflexão, haja vista que, a ganância tende a acabar com os seres vivos, resta-nos a esperança que pessoas de bem consigam encontrar o caminho de volta, à tempo. Mensagem vital> Moralidade,integridade e confiança. Abraços a todos. Hilda Barros / Sup/RH

 
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