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23/08/2010
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Tempo para o tempo. Há tempo?

Por Lúcia Batista do Nascimento para o RH.com.br

Hoje estou dando um tempo para algumas reflexões sobre como tenho me relacionado com o tempo, mesmo com dúvidas se há tempo para isso.

Essas reflexões foram suscitadas pelo tema de um congresso: "Quais as ressonâncias que essa experiência de tempo contemporâneo gera nos vínculos e subjetividade de indivíduos e grupos, incluindo os profissionais que trabalham com as relações humanas?".

Ao me deparar com essa frase, imediatamente foi despertada em mim a vontade, e diria até que a necessidade de escrever sobre algumas reflexões sobre esse assunto.

Estou fazendo uma parada de certa forma forçada, por ordens médicas, já que bate à minha porta certo sintoma dessa velocidade desenfreada que os tempos modernos - ou somos nós mesmos? - nos impõem: a depressão. É muito difícil aceitar essa condição. Nesse pacote vem junto o medo, a insegurança, o sentimento de ser menor, de ser fraco e de não ser mais capaz. Eu que, até um tempo atrás, me achava tão capaz, e mesmo diante de tantas dúvidas, tinha tantas certezas.

Trabalhei por aproximadamente quinze anos com relações humanas, sempre em busca de colaborar para melhoria do ser humano e, consequentemente, desenvolvimento e aperfeiçoamento profissional, que é a resposta esperada dentro de uma organização, de uma empresa. Mas hoje me percebo tão perdida, à procura desse tempo, que me parece ter escapado por entre meus dedos.

Enquanto estive totalmente envolvida por esta "produção", não tive tempo para me perceber, ou melhor, não deu tempo para me encontrar verdadeiramente. Nem me dei conta de quanto esse ambiente foi tirando de mim minha capacidade criativa, minha alegria de viver. Uma coisa puxa a outra e aí quando vamos ver já se passaram dez, quinze, dezoito anos... Nossa, e como passa rápido!

E esse momento me faz lembrar uma frase que meu irmão (um dos onze que tenho, diga-se de passagem) me disse há tempos atrás, quando falava sobre seus planos para o futuro. Dizia que gostaria de voltar a morar no interior - nascemos no interior, e vivemos nossa primeira infância em um sítio distante a sete quilômetros de uma cidade que tinha uma rua principal, um ginásio e uma igreja - para poder contemplar mais a vida! Essa fala dele na época me ressoou tão distante, porque minha vida naquela fase era de muito trabalho e total envolvimento com produzir, produzir e produzir.

O tempo nesta contemporaneidade enlouquecida é implacável! Precisamos cada vez mais provar, a cada dia, a cada instante que somos capazes, que somos merecedores do ar que respiramos. E que ar, não?! E que momento é esse?! Quantos acontecimentos com nosso meio ambiente, grandes mudanças climáticas e por aí vai. E, somos sim, querendo ou não, aceitando ou não, todos responsáveis por tudo isso que o universo está nos devolvendo. Se colocarmos um pouco de reparo, vamos perceber que talvez ele esteja nos devolvendo da mesma forma que o tratamos anos após anos.
Mesmo sendo um período bastante difícil que atravesso, acredito que seja propício para a introspecção, a reflexão e a busca pelo entendimento das coisas que precisam ser transformadas.

Estou conseguindo pensar sobre coisas que não servem mais e que precisam ser descartadas - sejam relacionamentos ou atitudes diante desses relacionamentos; seja a área que atuei até, então, e poder enxergar que podemos contribuir em outros "mares".

E para finalizar, contrariando a frase de Fernando Pessoa, digo que navegar é preciso, mas Viver também é preciso.

 

Palavras-chave: | qualidade de vida no trabalho | tempo |

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COMENTÁRIOS (5)
Sandra Sueli Couto Guerra em 30/08/2010:
Merecedores do ar que respiramos todos nós somos. Ele é dado por nosso DEUS maravilhoso e, não precisamos provar nada para Ele. Na verdade queremos provar para as outras pessoas nossa capacidade de conquista, mas acabamos nos perdendo ao longo do caminho que é longo e atropelando os nossos sentimentos, e quando isto reflete em nosso corpo, causa sintomas de desconforto, mas quando puxamos o freio para refletir se valeu a pena pelo tempo que foi dedicado na busca do aperfeiçoamento profissional, acabamos esquecendo de buscar a perfeição do caráter, onde o maior exemplo é Cristo. Navegar é preciso, mas Viver com Cristo é indispensável. " Tudo contribui para aqueles que amam à DEUS". Um abraço.

nedison oliveira pinto em 29/08/2010:
Muito interessante este artigo, pois relata nossa realidade nos dias atuais. Haja vista que em um mercado extremamente competitivo, não damos mais importância às coisas simples da vida e que são de grande necessidade para o nosso bem estar. Afinal de contas, não dá pra voltar no tempo.....

Otávio G. Diniz em 28/08/2010:
O tempo, esse recurso indomável e misterioso. Será possível "administrar" o tempo? Como administrar algo, cujo significado é pessoal e único para cada um de nós? Penso que acreditar e praticar a ideia de que somos capazes de administrar o tempo, causa doença, mais cedo ou mais tarde, pois nunca seremos bem sucedidos nessa empreitada. O tempo, segundo Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: s. m. 1. Série ininterrupta e eterna de instantes. 2. Medida arbitrária da duração das coisas. 3. Época determinada. 4. Prazo, demora. Acredito na ciência que já demonstrou que o tempo absoluto definitivamente não existe, ainda que nosso senso comum não admita isso. Sugiro então que, encontremos o termo certo para empregar, quando deparamos com a ideia de gerir o tempo. Substituir a palavra tempo, por outra que imprima melhor entendimento e praticidade para administrarmos nossa vida profissional e privada. Assim, interpretei e degustei o excelente texto "Tempo para o tempo. Há tempo?" da Lúcia Batista, vendo os seguintes significados: -"Vida para a vida. Há escolha?" -...não tive o discernimento para me perceber, ou melhor, não coloquei suficiente reparo para me encontrar verdadeiramente. - ...A vida nesta contemporaneidade enlouquecida é implacável! Também elucubrando com a frase de Fernando Pessoa, diria que: ...navegar é preciso, mas o tempo não é preciso.

Lauro Cesar Ibanhes em 27/08/2010:
... pois é, 'navegando' pela rede, vi o belo texto da Autora convidando a viver! E nos lembrando que a impotência só nasce e prospera justamente onde e quando somos empurrados a parecer onipotentes!! Ótima sugestão: nos voltarmos ao interior! 'Brigadão. Att.

Magda Alves em 25/08/2010:
Estou em busca desse tempo, tempo que de tão corrido não fui capaz de perceber que estava perdendo, perdendo o tempo de viver, de contemplar minhas conquistas, mesmo sendo pequenas diante da minha capacidade. Estou como você, na necessidade obrigatória de parar o tempo, que de tão cega deixei ele passar. Mas nós mulheres temos o poder do renascimento, mesmo quando tudo parece perdido, mesmo quando o medo nos obriga a parar. Abraços

 
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