Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

RH.COM.BR - Como consultor, o Sr. tem a oportunidade de conhecer a realidade de muitas empresas. Que análise o Sr. faria do humor do trabalhador brasileiro?
Armando Pastore Mendes Ribeiro - Em primeiro lugar, é bom esclarecer o que é bom humor e o que é humorismo, piadismo (se é que esta palavra existe). O trabalhador brasileiro carrega para as organizações a sua veia humorista, gozadora e provocativa. Conta piadas, organiza momentos de gozações, sempre dos outros companheiros. O humorismo brasileiro conta muito mais com as situações preconceituosas e vexatórias. Rir dos outros não significa, necessariamente, ter bom humor.O bom humor comprovadamente produz fluídos e hormônios que estimulam nosso corpo. São as endorfinas, responsáveis pelo equilíbrio e bem estar do organismo. Note que as pessoas “bem humoradas” são aquelas que dificilmente adoecem. Estão sempre aptas a doar alegria para alguém. Conseguem resolver problemas com muita tranqüilidade e calma. Têm sorte na vida e conseguem sucesso de uma forma toda especial. Estão sempre cercadas de outras pessoas e parecem viver intensamente cada momento. Enxergam os problemas e dificuldades pelos aspectos positivos. Não quero dizer que não sintam tristeza, melancolia, raiva, ansiedade e tantos outros sentimentos normais dos seres humanos. O que faz com que sejam pessoas bem sucedidas é que não ficam, por muito tempo, com esses sentimentos negativos. Se analisarmos por esse aspecto o trabalhador brasileiro está carente de bom humor.
RH – E as organizações, estão tentando reverter este quadro de mau humor?
APMR - Algumas organizações vivem contratando consultores para realizarem palestras sobre humor, motivação e entusiasmo. Durante o breve período do evento as pessoas riem, cantam, expandem muita alegria, mas ao saírem do ambiente vão pouco a pouco voltando ao estado inicial de desconforto. Não há continuidade do programa e as pessoas têm muita dificuldade em aplicar aquilo que viram nas palestras e nos cursos. São apenas momentos de descontração. Perguntei para alguns dos meus clientes se existia bom humor no seu trabalho e ouvi apenas situações esporádicas e individuais ou então, o depoimento de que existe um chefe ou um colega que sem nenhum programa promove o bom humor e contagia o restante do grupo.
RH – E sobre as repartições públicas? Essas diferem muito do setor privado?
APMR - Hoje, infelizmente, o humor nas organizações públicas é péssimo. As greves em profusão, os salários defasados, nenhuma perspectiva de melhoria nas condições de trabalho e em alguns órgãos, o número de funcionários é abaixo do mínimo necessário para a execução das tarefas. Há, ainda, os aspectos políticos que interferem negativamente nas tomadas de decisões. Não há bom humor que agüente. O funcionário público tornou-se um dos temas preferidos para piadas sobre trabalhadores. Isso provoca uma irritação muito grande ou então, acomodação e omissão.
RH – O humor é uma manifestação do sentimento humano que não pode ser apagada, mas sim trabalhada. O que o RH pode fazer para manter uma equipe descontraída?
APMR - Primeiramente, o profissional de RH tem que estar de bom humor! Não vejo como pessoas mau humoradas possam tratar com outras pessoas. O cliente do RH é gente. Se você tem mau humor, procure outra área para trabalhar. Outra dica é estimular e incentivar aquelas pessoas que são bem humoradas, ao invés de chamá-las de Polyana, hiena ou algo parecido. O RH pode, também, realizar coisas simples como, por exemplo: se a empresa tem um sistema de som ambiente, ao invés de ouvirem as notícias que contam as primeiras desgraças do dia, toquem músicas alegres; promova sessões de cinema na empresa ou comprem ingressos e doem para os funcionários, mas escolha filmes como o "Amor é Contagiante – A história de Patch Adams", que trata as doenças através com o bom humor; colecione frases de bom humor. Inicie e termine os informativos do RH com elas; Se as áreas de trabalho têm paredes de cor escura, pintem com cores claras e vivas; incentive todos os setores e departamentos a terem, pelo menos, uma hora de descontração por semana. "A hora do Riso semanal".
RH – Quais são as principais ferramentas que o profissional de RH pode utilizar para melhorar o ânimo das pessoas?
APMR - Além de algumas que citei acima, sem dúvida, a fundamental é uma postura positiva. Uma forma de ver as situações e problemas do dia-a-dia de forma clara, organizada, planejada e confiante. Se o profissional de RH não acredita no processo quem irá acreditar?
RH – Quando uma equipe começa a apresentar dificuldades de relacionamento, por causa de uma pessoa mau humorada, como o RH deve proceder antes que a equipe seja contaminada?
APMR - É preciso considerar que nem sempre o RH pode resolver ou melhor, deve resolver casos desse tipo. O Rh pode influenciar as pessoas e os líderes a estarem preparados para enfrentar essas situações. Quanto menor a interferência, em alguns casos, melhor serão os resultados. Evidentemente em algumas situações graves, o RH precisa estar atuando diretamente. Nesses momentos, a melhor alternativa é saber as razões do mau humor do profissional. Ninguém fica de mau humor por que quer, pois há sempre um motivo. Trabalhar nas causas e não nas conseqüências é a melhor solução que se pode encontrar.
RH – E em relação às chefias ? O que um líder deve fazer para evitar que seja rotulado de chato?
APMR - Em primeiro lugar, o líder precisa gostar da sua liderança. Nenhum chefe que não gosta do que faz, consegue ser bem humorado. O “ser chato” é uma condição que deve ser temporária. No nosso anedotário, o chefe é sempre chato. Isso, até o dia em que você se torna o próprio chefe. Aí, passa a ser exigente. O líder tem que sempre buscar uma postura aberta para dar, receber e incentivar, de uma maneira agradável, o convívio entre os seus colaboradores e liderados. Devemos lembrar que ser uma pessoa de bom humor não significa estar em permanente estado de alegria, gargalhando por qualquer coisa, mas sim estar num estado de espírito que o leva a caminhos e soluções compartilhadas. Aprender a compartilhar problemas e ouvir outras formas de pensar é uma boa maneira de buscar bons humores. A chefia deve, também, incentivar um momento de lazer e de descontração entre os funcionários da equipe e principalmente esclarecer a cada um seus objetivos e metas. Isso pode não ajudar no bom humor, mas com certeza as pessoas bem informadas e responsáveis terão menor probabilidade de ficar mau humoradas.
RH -Durante a última resposta, o Sr. deu boas risadas. Qual foi o motivo?
APMR -Pense comigo e imagine a cena: Início da segunda-feira, de um dia chuvoso, véspera da entrega do relatório mensal. No departamento todos estão trabalhando de cabeça baixa e aceleradamente. O chefe entra, olha e vê aquele ambiente macambúzio e sorumbático (novíssimas palavras). Pega uma vassoura que está encostada num canto da sala e imitando um trotar de cavalo, entra na sala, estaciona seu corcel na mesa, desmonta, tira seu chapéu imaginário, balança-o como se o estivesse limpando da poeira, olha para seus colaboradores, ajeita sua gravata com desenho do Frajola e exclama: - Bons dias pessoar! Que belo dia hoje, né?. A primeira impressão que temos é a mesma dos colaboradores: ficou maluquinho de pedra! Mas, esboçamos um leve sorriso pelo inusitado. O chefe continua e interrompe todos. – Tenho importante notícia! E continua: - Hoje, na hora do almoço, eu pago uma coxinha de galinha e meio guaraná, sem gelo, no Sujo’s Bar. Quem se habilita? Novamente o murmúrio e as risadas começam a aparecer e se instala um novo ambiente. Um dos seus colaboradores conversa com outro em tom mais baixo: Maluco ele já é, mas não é perigoso e é até um bom sujeito ! Onde é que ele arruma tanta alegria? A irreverência faz parte do bom humor. Com aquele comportamento inusitado, o chefe convocou outros para o riso, criando um clima de alegria e espontaneidade.
RH – Que conselho o Sr. daria para que as pessoas tenham bom humor e conseqüentemente, contribuam para a existência de um clima agradável dentro das empresas?
APMR - O bem humorado ri dos próprios erros e dificuldades. As pessoas que convivem com ele se sentem à vontade para arriscar, ousar e inovar, sem medo de serem criticadas. Aprendem a rir. As pessoas e organizações que praticam o bom humor têm obtido maior lucro que as outras. Não consegui enxergar uma única que obtivesse obtido lucro ou existência longa com o uso do mau humor. Quando as organizações incentivam o bom humor nos seus funcionários, as equipes ficam mais energizadas. Ficam mais humanas. "Sabe aquela que conta que existia um cantor lírico muito famoso nos EUA, que um dia sugeriu ao seu empresário que lhe arrumasse uma apresentação no Scala de Milão. E assim aconteceu. Noite de estréia, casa cheia e o artista cantou a primeira música. Ao final a platéia gritava: - Bis, repete!. O cantor não entendeu a situação: - Primeira música e a platéia pede bis? Ele resolveu satisfazer o público e cantou mais uma vez o mesmo número. Ao final o público repetiu: Bis, repete! E assim aconteceu mais algumas vezes. E o público gritando: Bis, repete! Enfim exausto, ele perguntou à platéia: - Até quando querem que eu repita esta peça? Uma velhinha que estava na primeira fila respondeu:- Até cantar direito!". Isso é a vida, temos que tentar, repetir e tentar novamente, até atingirmos aquilo que esperamos. Da próxima vez, devemos pensar, farei diferente!
Palavras-chave: | humor |
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