Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

RH.com.br - Sabemos que a pressão tem sido uma constante no dia-a-dia das empresas e essa, por sua vez, gera conseqüências diretas nas pessoas. Quais os reflexos que esse quadro provoca nos trabalhadores?
Paulo Gaudencio - As pessoas dizem, em geral, como se fossem sinônimos: estou enfrentando uma pressão enorme, estou num estresse incrível. Mas, não são sinônimos. A pressão acontece fora. Toda mudança acarreta uma pressão. Meu corpo, então, precisa mudar para enfrentar a mudança que houve fora. A mudança interna chama-se estresse. Como a pressão aumenta cada vez mais o estresse torna-se cada vez maior.
RH - Esses reflexos podem ser considerados negativos ou existe um lado positivo nisso tudo?
Paulo Gaudencio - O estresse é uma reação normal. É, na realidade, uma conquista dos animais que garante sua sobrevivência, na medida em que corresponde à preparação do animal para uma reação de luta ou de fuga. Pode, no entanto, tornar-se patológico, tendo, então, conseqüências danosas para a saúde da pessoa.
RH - De que forma a pressão no ambiente organizacional influencia o desempenho dos colaboradores?
Paulo Gaudencio - A competição tornou-se imensa após a globalização. Hoje a empresa não compete apenas com o concorrente noutro bairro da mesma cidade ou de outro Estado do mesmo país. Hoje em dia, além dessa concorrência, que permanece, a empresa tem competidores em todos os cantos do mundo. Esta pressão que as empresas sofrem é repassada para os colaboradores. Uma coisa que tem me chamado a atenção é que o nível de estresse nas empresas está ocorrendo em todos os níveis hierárquicos. Quase arrisco dizer que o estresse é tão maior quanto mais subimos na hierarquia.
RH - As empresas estão conscientes de que o trabalhador está sofrendo pressão em suas emoções?
Paulo Gaudencio - Esta pergunta provoca-me um certo grau de complicação. A resposta que posso dar está baseada na minha experiência com as empresas que me contratam. E estas empresas estão preocupadas com a saúde física e mental de seus colaboradores. A impressão que eu tenho, então, é de que todas as empresas preocupam-se. Sei que isto não é verdade. De outro lado, certamente há empresas preocupadas com o problema, preocupadas com a sua solução, mas buscando esta solução por caminhos corretos que não me incluem. O que posso dizer com segurança é que o número de empresas que se preocupa com a qualidade de vida de seus colaboradores é cada vez maior.
RH - Em três décadas de trabalho, o Sr. tem dedicado parte de sua vida à terapia organizacional. Esta alternativa tem sido muito utilizada pelas empresas?
Paulo Gaudencio - Como já disse, tem sido cada vez mais usada. Tenho, inclusive, descrito o ser humano como "a última descoberta da tecnologia". Depois de décadas dedicadas ao mais moderno maquinário ou ao mais moderno sistema, as empresas descobriram que existe alguém que "toca" este maquinário e este sistema. Como não era cuidado, acabou tornando-se o elo fraco da corrente. E como a corrente quebra exatamente no elo fraco, ele passou a ser privilegiado.
RH - Como a terapia organizacional é aplicada na prática?
Paulo Gaudencio - A terapia organizacional é uma terapia focal breve. É terapia porque o fundamental é a revisão que se faz da qualidade que atribuímos às emoções básicas, à agressividade, à afetividade e ao medo. Revemos o valor que atribuímos a estas emoções e como lidamos com valores, estamos falando de terapia. Aprendemos a forma adequada de viver as emoções básicas no papel profissional. É focal porque só falamos do papel profissional. Embora saibamos que se os valores mudam, eles mudam no ser humano como um todo. Portanto, no trabalho só falamos de profissão, para que ninguém seja exposto. É breve porque tem um prazo previamente contratado. Na prática, fazemos um seminário com dois dias de duração em que os conceitos teóricos são estudados e contratamos seis reuniões mensais de continuidade, com três horas de duração cada uma. Este contrato pode ser refeito uma vez, e apenas uma.
RH - A terapia organizacional deve ser usada juntamente com alguma outra ferramenta auxiliar?
Paulo Gaudencio - Não diria que deve haver uma ferramenta auxiliar. Mas posso dizer que pode haver. Coach individual, por exemplo, é um instrumento que freqüentemente associamos à terapia organizacional.
RH - Além da terapia, que outros recursos estão sendo usados pelas empresas para trabalhar as emoções dos profissionais?
Paulo Gaudencio - O coach individual é um instrumento que as empresas usam com freqüência. Temos visto também o uso de formas de descarregar as tensões decorrentes do aumento de estresse. Isto significa que as empresas estão atentas também para trabalhar com os sintomas. Meditação, academias para exercícios físicos, massagens, ioga são outros recursos utilizados.
RH - Como o profissional de RH posiciona-se dentro do contexto emocional dos colaboradores?
Paulo Gaudencio - Ele está sujeito às mesmas tensões que o resto todo da equipe. E, em geral, espera-se dele uma resposta para o problema. Lembra-me bastante a música, acho que de Djavan: "não ter e ter que ter pra dar". Isso aumenta o estresse. A posição do consultor externo é, neste aspecto, mais tranqüila, na medida em que não se está sujeito àquela pressão. Mas, não se engane. O consultor externo está sujeito a outras. Tenho uma experiência com meus trinta anos de trabalho com terapia organizacional. O sucesso de meu trabalho depende da participação da área de RH.
RH - A área de RH deve trabalhar precisa atuar em parcerias para realizar esse trabalho?
Paulo Gaudencio - É sempre bom lembrar que junto a gente vai mais longe. O que atrapalha é que sozinho a gente vai mais depressa e este pensamento pode atrapalhar muitas tentativas de teambuilding.
Palavras-chave: | Paulo Gaudencio | estresse | emoção |
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