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04/07/2005
RH » Qualidade de Vida » Entrevista Enviar Comentar Compartilhar Imprimir

Executivos: saúde abalada

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Apesar das mulheres serem as maiores vítimas da enxaqueca, na população em geral, entre os executivos a prevalência é semelhante entre os dois sexos. Esse é o resultado de um estudo conduzido, recentemente, pela Vita Check-up Center junto a dois mil executivos de grandes companhias. Segundo o cardiologista Antonio Carlos Till - coordenador do trabalho, a dor de cabeça pode ser encarada como "doença profissional de executivos" e vem sendo ocasionada pela constante pressão que esses profissionais precisam lidar no dia-a-dia sempre marcado pela acirrada competitividade. Para falar mais sobre essa pesquisa e como as empresas podem cuidar melhor da saúde dos executivos, o RH.com.br entrevistou o Dr. Antonio Carlos Till. Confira e veja como as organizações, auxiliadas pela área de Recursos Humanos, podem oferecer uma melhor qualidade de vida para esses profissionais.

RH.com.br - Recentemente, o Sr. realizou uma pesquisa junto a executivos e o resultado do seu estudo revelou que de cada dez profissionais, três reclamam de dores de cabeça. Esse índice é preocupante?
Antonio Carlos Till - Este é um índice bastante significativo, mas não tão alarmante quando comparamos com a população em geral ao falarmos de cefaléias como um todo, cuja prevalência pode chegar a quase 90% da população. Porém se nos referimos às enxaquecas, que acometem de 12% a 15% da população em geral e foi o tipo de cefaléia predominante em nosso grupo, diferentemente da população geral onde as cefaléias mais freqüentes são as tensionais, também conhecidas como dor de cabeça comum, realmente temos um número bastante elevado. Outro aspecto a considerar é o de que nossa população pesquisada é formada por 80% de homens e as enxaquecas são mais comuns em mulheres, isso faz com que a prevalência por nós encontrada seja realmente elevada.

RH - O resultado da sua pesquisa o levou a considerar a dor de cabeça como sendo "doença profissional do executivo". Por que o Sr. chegou a essa conclusão?
Antonio Carlos Till - Dada à grande freqüência com que encontramos este problema em nosso grupo de clientes, predominantemente formado por executivos, e sua forte associação com o estresse emocional.

RH - O resultado da sua pesquisa o surpreendeu?
Antonio Carlos Till - Se entendermos que esta alta prevalência tem uma associação com o ritmo de vida altamente estressante dos executivos, podemos inferir que os mesmos estão somatizando a imensa carga de pressão a que são submetidos no seu dia-a-dia. Certamente que já vínhamos observando isto há muito tempo, até porque dispomos de uma avaliação de estresse emocional dentro do nosso programa de check-up com uma estratificação do nível de estresse de nossos clientes. O que chama muito a atenção é que estas pessoas são obrigadas freqüentemente a interromper seu trabalho ou suas atividades familiares em função de enxaqueca, o que determina um comprometimento de sua qualidade de vida.

RH - Quais são os principais fatores vividos dentro do ambiente corporativo que têm prejudicado a saúde dos executivos?
Antonio Carlos Till - Acredito que ambientes extremamente competitivos, onde cargos e bônus são disputados de forma acirrada e, por vezes, predatória, estimulados pela própria corporação, é um meio fértil para problemas de saúde entre os executivos. O estresse emocional, a carga de trabalho excessiva com longas jornadas de trabalho, a quebra de rotina por constantes viagens e eventos levando à má alimentação, sedentarismo e consumo excessivo de álcool contribuem sobremaneira para prejuízo da saúde destes profissionais.

RH - Quais as conseqüências que esses fatores têm provocado aos executivos?
Antonio Carlos Till - São muito freqüentes além das cefaléias, as doenças de pele - como a psoríase e a desidrose, as alterações gástricas como queimação por refluxo gastroesofágico, o colon irritável, as taquicardias e a hipertensão arterial, além da maior prevalência de doença coronariana. O sedentarismo e a alimentação não saudável têm levado ao ganho excessivo de peso que favorece a obesidade com suas conseqüências como diabetes e hipertensão arterial, dentre outras.

RH - Que problemas esse contexto tem trazido às próprias organizações?
Antonio Carlos Till - Podemos destacar principalmente a queda no rendimento do executivo, que é obrigado por vezes a desmarcar tarefas, como reuniões ou viagens, em função da incapacitação produzida pelas enxaquecas.

RH - Esse fato tem ocorrido apenas pelo ritmo imposto pelas empresas ou os profissionais também estão esquecendo de cuidar da própria saúde?
Antonio Carlos Till - Digamos que encontramos empresas com grande preocupação com a saúde de seus executivos e outras que falam, mas na hora de dar ao executivo os benefícios de um check-up não o fazem ou se oferecem, o fazem olhando apenas para o custo e não para a qualidade do serviço prestado. O executivo pressionado acaba, sem dúvida, esquecendo de si próprio e se dedicando inteiramente à empresa. Por isso, é fundamental que as empresas tenham uma real preocupação com a saúde e a qualidade de vida de seus importantes colaboradores.

RH - Que ações práticas a organização pode adotar para que esses profissionais possam cuidar adequadamente da saúde?
Antonio Carlos Till - A preocupação com a saúde deve englobar o estímulo às jornadas de trabalho razoáveis, fomentar a atividade física regular, uma alimentação saudável e a mudança de hábitos de vida que o prejudiquem, além de motivar a cessação do fumo, o controle do consumo de álcool e obrigar os executivos a respeitarem seus períodos de férias. Disponibilizar uma academia de ginástica dentro da própria empresa, estimular a realização de check-ups periódicos de saúde cobrando atitudes corretivas das alterações encontradas. Vale também empregar programas de incentivo para o afastamento temporário do ambiente de trabalho, permitindo descanso e recuperação de forças do executivo, além de manter um restaurante com opções de alimentação saudável e o fácil acesso à orientação nutricional. Essas são ações que certamente estarão zelando pela saúde destes colaboradores.

RH - Como a área de Recursos Humanos pode colaborar para que os executivos tenham uma melhor qualidade de vida e conseqüentemente mais saúde?
Antonio Carlos Till - Acredito que posturas transparentes com metas previamente bem definidas no ambiente de trabalho, evitando disputas sem limites por bônus ou cargos, que levam a atitudes mais éticas de todos, são ações que certamente reduzem o elevado e, por vezes, desnecessário, nível de estresse emocional dos executivos e as conseqüências à saúde deles. A busca de programas que estimulem o sucesso das equipes em um ambiente de sinergia, com valorização da família, pode ser estimulada pela área de RH, trazendo uma qualidade de vida melhor e uma motivação que se traduzem em maior produtividade e satisfação pessoal.

RH - Investir na saúde dos executivos custa caro para as empresas?
Antonio Carlos Till - Não, não custa. Vários trabalhos têm demonstrado que os gastos em ações de saúde preventiva possuem uma alta taxa de retorno, seja pela maior produtividade, redução de absenteísmo e de presenteísmo, maior nível de satisfação do executivo com sua companhia e, portanto, maior lealdade e compromisso com a missão de sua empresa.

Palavras-chave: | executivo | saúde | enxaqueca | Antonio Carlos Till |

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