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24/10/2005
RH » Qualidade de Vida » Entrevista Enviar Comentar Compartilhar Imprimir

O estresse nem sempre é negativo

Patrícia Bispo

Com a presença constante da competitividade, as pessoas precisam enfrentar um dia-a-dia corporativo cada vez mais acelerado e com isso surge o estresse. Quando esse ultrapassa o limite suportável, as equipes começam a apresentar sintomas que comprometem tanto a vida profissional quanto a pessoal. Dentre os reflexos causados pelo chamado "mal do século", podemos destacar: conflitos internos, enxaquecas, ansiedade, problemas gástricos, falta de apetite e insônia. Mas se o estresse já tomou conta da rotina das empresas, como conviver com essa realidade sem que ela traga tantos problemas? A resposta pode estar dentro de cada um. "Quem não encontra tempo para cuidar da própria qualidade de vida, vai encontrar tempo para cuidar de sua recuperação em alguma doença resultante do estresse", afirma o terapeuta organizacional Gustavo Boog. Em entrevista concedida ao RH.com.br, ele comenta que o homem precisa conviver com o estresse, pois esse pode ser um fator motivacional para a superação de desafios. Se você acredita que foi "contaminado" pela correria diária ou sente que sua equipe está no "limite da pressão", leia a entrevista e reflita sobre o assunto. Boa leitura!

RH.com.br - O estresse se tornou uma constante no dia-a-dia das empresas. Que conseqüências isso está gerado para o meio corporativo?
Gustavo Boog - O estresse, em si, não é algo negativo. Nós sempre associamos o estresse à sobrecarga, à irritação, ao "pavio curto". Temos que conviver diariamente com o estresse, que nos mobiliza, nos motiva e nos faz agir. Acontece que nos dias de hoje o nível de estresse está alto em muitas organizações, gerando conseqüências negativas como ausências, baixo desempenho, desmotivação e doenças físicas e emocionais.

RH - O Sr. tocou numa questão que sempre preocupa as empresas: o desempenho dos colaboradores. Por que o estresse tem sido um dos vilões que afeta a performance das pessoas?
Gustavo Boog - Se considerarmos que a saúde é muito mais que a ausência de doenças, mas sim que a saúde é a presença da vida, da energia e do prazer, veremos o estrago que o estresse potencialmente pode fazer. O estresse sempre surge quando há uma diferença entre "o que eu deveria estar fazendo e realizando" com "o que eu estou fazendo e realizando". Se a cobrança é alta, esta diferença é também muito alta e gera o estresse. Num nível razoável, é esta diferença que nos mobiliza positivamente. Se a diferença é exagerada, muito alta, ficamos negativamente estressados. Na busca pela competitividade as corporações têm reduzido níveis hierárquicos, reduzido pessoal, reduzido custos, fazendo com que cada um deva trazer um alto valor agregado para a organização. Vivemos a época do "fast tudo". Acontece que na maioria das vezes a competitividade é exagerada, os recursos são escassos e os cronogramas apertados, gerando um estresse violento. Quando isto ocorre ocasionalmente, nós suportamos bem. O problema é que isto ocorre continuamente, desgastando pessoas e equipes.

RH - A presença do estresse nas empresas deve ser sempre vista com uma preocupação constante ou isso é alarmismo desnecessário?
Gustavo Boog - O estresse não é alarmismo. Veja o que ocorreu nas empresas na época recente em que a re-engenharia era apresentada como a salvação das empresas. O capital humano se desgastou de forma intensa e o estresse foi altíssimo.

RH - Imaginar uma empresa competitiva sem estresse é utopia?
Gustavo Boog - Devemos sempre lembrar que podemos ser competitivos e ter um nível saudável de estresse. Isto não é utopia. Podemos ter concorrentes, mas não precisamos tratá-los como inimigos. Podemos ter prazos, mas não precisamos ser escravos do relógio.

RH - Existe uma receita para controlar o estresse corporativo?
Gustavo Boog - É difícil se falar em receitas, pois cada empresa tem uma realidade diversa das demais. O trabalho em equipe, os programas de qualidade de vida, a boa comunicação e a atuação positiva das lideranças são algumas das características de empresas competitivas com estresse razoável.

RH - Quais os erros mais comuns que as empresas cometem quando se deparam com níveis de estresse significativos?
Gustavo Boog - Achar que esse problema é algo passageiro ou não dar importância aos avisos que um elevado nível de estresse manifesta. Muitas vezes, é preciso que algo grave, como um infarto ou crise de hipertensão, ocorra para que as pessoas e a empresa acordem e tomem medidas necessárias.

RH - Que mecanismos são mais eficazes para monitorar o estresse corporativo?
Gustavo Boog - Acredito que uma das melhores formar de monitorar o estresse corporativo é acompanhar os indicadores de clima organizacional, bem como verificar as ausências dos profissionais, os índices de turnover e ficar sempre atento ao próprio histórico clínico dos profissionais que atuam na empresa.

RH - O combate ao estresse requer investimentos altos ou existem medidas simples que também podem dar bons resultados?
Gustavo Boog - Acredito que um bom gerenciamento de pessoas e de equipes é uma medida simples, de investimento baixo e que representa um alto retorno para as corporações. Mas, não é apenas isso. Além das ações organizacionais, cada um individualmente pode aprender a respeitar mais os seus limites e aprender a dizer "não", quando um prazo ou atividade se mostrar intolerável para a sua realidade.

Palavras-chave: | Gustavo Boog | estresse | qualidade |

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