O site de referência sobre Gestão de Pessoas.
A Jornada de Liderança termina em 19/dezembro
Pesquisar
« Pesquisa Avançada »






30/10/2006
RH » Qualidade de Vida » Entrevista Enviar Comentar Compartilhar Imprimir

Todos precisam ter uma boa qualidade de vida

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

A busca pela qualidade de vida no trabalho (QVT) tem sido uma questão muito debatida no meio corporativo. Hoje, por exemplo, muitas empresas privadas investem em aulas de ginástica laboral, ergonomia, melhoria do ambiente físico, estímulo à realização de check-ups periódicos, combate ao tabagismo e ao alcoolismo, dentre muitas outras ações. Mas, como está a QVT no setor público? Será que a questão tem despertado a preocupação e o interesse nos dirigentes de órgãos públicos? De acordo com Ana Magnólia Bezerra, doutora em Psicologia e pesquisadora sobre trabalho e saúde, a QVT no serviço público brasileiro está em estado de alerta. "A precarização do emprego público refletida nos baixos salários, na terceirização, na falta de condições de trabalho e o descaso dos dirigentes prejudicam a qualidade de vida no trabalho", afirma. Em entrevista concedida ao RH.com.br, ela menciona quais os cuidados que a área de Recursos Humanos deve ter ao investir em programas que visam a melhoria da qualidade de vida no trabalho, afinal as organizações públicas, como as privadas, possuem um capital humano que também precisa ser valorizado. Confira a entrevista e reflita sobre o assunto!

RH.com.br - A melhoria da QVT é constantemente debatida no meio corporativo. Esse tema é apenas uma preocupação das empresas privadas?
Ana Magnólia Bezerra - De forma alguma. Esse assunto não é restrito apenas às organizações privadas. As empresas públicas também têm apresentado preocupação com essa questão. A desmotivação no serviço público tem levado a uma prestação de serviço deficiente e, por isso, transformou-se em fator de preocupação por parte dos gestores. Infelizmente, as empresas públicas estão sendo invadidas pelos indicadores de desempenho das empresas privadas e isso requer preocupação com a qualidade de vida no trabalho. O ideal seria que existisse uma gestão pública voltada para os ideais do serviço público e da cidadania, preocupada com a valorização do servidor público, não precisando de programas de QVT, que muitas vezes são paliativos para manter a situação de precariedade e de exploração do trabalhador como nas empresas privadas.

RH - Como está a QVT dos profissionais do setor público no Brasil?
Ana Magnólia Bezerra - Posso afirmar que a QVT no serviço público brasileiro está em estado de alerta, está realmente comprometida. A precarização do emprego público refletida nos baixos salários, na terceirização, na falta de condições de trabalho e o descaso que dos dirigentes tem prejudicado a qualidade de vida no trabalho. São muitos casos de profissionais que adoecem no serviço público, devido à falta de sentido do trabalho e das más condições dos postos onde os funcionários exercem suas atividades. Alguma coisa precisa ser feita para evitar os altos índices de adoecimento. É bom lembrarmos que a qualidade de vida no trabalho inevitavelmente requer a construção de um espaço organizacional que valorize a subjetividade, considerando os profissionais sujeitos do seu trabalho e não objetos de produção. É importante que exista uma cultura organizacional voltada para o desvendar do potencial criativo de seus empregados, oportunizando a eles a participação nas decisões que afetam diretamente suas vidas no ambiente corporativo.

RH - Por que o investimento na QVT dos funcionários públicos ainda é uma prática pouco comum no Brasil?
Ana Magnólia Bezerra - Simplesmente, por falta de uma gestão pública eficaz. O que ocorre, na realidade, é que os investimentos financeiros no serviço público são mal direcionados. Existe uma cultura de que o servidor público não faz nada e, por essa razão não precisa receber investimentos. E paradoxalmente, é exigido deles um desempenho como no setor privado. Assim, o servidor público sempre fica mal, ou porque é considerado um privilegiado ou porque é tratado como no serviço privado, sem as devidas condições.

RH - A cultura das empresas públicas e a falta de recursos são fatores que inibem o investimento na qualidade de vida dos profissionais?
Ana Magnólia Bezerra - Podemos afirmar que sim. A qualidade de vida no trabalho fica em segundo plano. Hoje, não ter QVT já demonstra a precarização do emprego público. Todos, principalmente daqueles que integram o poder Executivo, precisam melhorar a QVT e, para isso, é preciso a presença de verbas. É necessário investir na melhoria dos postos de trabalho, nos salários e na modernização da gestão.

RH - Quais são as conseqüências que a falta de investimento na QVT tem gerado ao setor público?
Ana Magnólia Bezerra - Destacaria o aumento da desmotivação e, com isso, a negligência dos serviços prestados. Podemos destacar ainda, outras conseqüências como a presença de doenças ocupacionais como LER (Lesões por Esforços Repetitivos) e DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho), problemas psicossomáticos como obesidade, hipertensão e até mesmo casos de depressão.

RH - Isso também tem reflexos diretos no atendimento ao cliente externo?
Ana Magnólia Bezerra - Claramente, pois isso é sentido pelo cidadão. É bom lembrarmos de que o público recebe toda a carga de insatisfação, que gera absenteísmo e falta de compromisso. No entanto, caso os órgãos públicos recebam investimentos, conseqüentemente, surgirão todos os diferenciais. Nesse caso, o público só tem a ganhar com servidores mais valorizados, com melhores condições de trabalho e sem doenças ocupacionais.

RH - Então, a QVT tem reflexo direto no desempenho dos profissionais.
Ana Magnólia Bezerra - É bom lembrarmos que o papel da qualidade de vida torna-se marcante quando se deseja o crescimento da produtividade e do bem-estar dos profissionais, considerando a obtenção de resultados crescentes, pela organização, como fundamental para que a busca de melhorias nas condições, organização e relações de trabalho ocorra permanentemente.

RH - As ações em QVT no setor público têm peculiaridades, se comparadas ao setor privado?
Ana Magnólia Bezerra - Sim, existem peculiaridades que devem ser consideradas. As ações para os órgãos públicos devem ser dirigidas para as necessidades de cada empresa e local de trabalho. Por exemplo, a organização do trabalho é um dos grandes problemas do serviço público, ou seja, ainda existem muitos problemas relacionados com o planejamento das atividades, com a definição e com a distribuição das tarefas de acordo com as competências, bem como com a capacitação dos profissionais.

RH - Que cuidados a área de RH deve ter, ao investir em ações que melhorem a qualidade de vida do funcionário público?
Ana Magnólia Bezerra - A área de Recursos Humanos deve fazer um diagnóstico das necessidades dos serviços e não implantar pacotes prontos de QVT. Às vezes, as ações não implicam em custo, pois são ações de mudanças nos modos de gestão. Os programas devem ser implantados com a participação do maior número de servidores. A QVT não é algo instituído, deve ser um valor e uma construção coletiva, pois trata do bem-estar de todos e da melhoria das condições de produção.

RH - Que práticas de sucesso no setor público a Sra. tem conhecimento e que podem servir de exemplo para outras organizações?
Ana Magnólia Bezerra - São práticas nas quais se buscou integrar produtividade e bem-estar. São experiências que privilegiam a participação dos gestores e dos servidores, a criação de grupos de trabalho representativos das diferentes áreas da empresa e visam, principalmente, mudanças na cultura organizacional.

RH - Antes de adotar qualquer programa voltado para a QVT, a empresa deve pesquisar, por exemplo, as reais necessidades dos funcionários?
Ana Magnólia Bezerra - Sim, é preciso que seja feito um trabalho prévio. Devem ser realizadas atividades como, por exemplo, pesquisa, debate dos resultados com os servidores, capacitação de grupos para fazer a gestão de QVT. Deve-se também ter a preocupação de se criar grupos intersetoriais para coordenar e avaliar a implantação das ações. A qualidade de vida no trabalho deve ser pesquisada por meio das relações entre organização, condições e relações de trabalho e as vivências de prazer-sofrimento.

Palavras-chave: | Ana Magnólia Bezerra | qualidade de vida |

  • O que você achou? Avalie:
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
Enviar Comentar Compartilhar Imprimir
CONTEÚDO RELACIONADO
COMENTÁRIOS (3)
Edilene em 04/03/2013:
Nossa! Fiquei muito satisfeita em encontrar um texto tão claro e objetivo, acredito sim que necessitamos de repensar a QVT no setor público e isso é algo que deve ser realizado com urgência. Isto é, para ontem. Agradeço pelo compartilhamento de informações e conhecimento.

Cicero em 17/10/2009:
Achei ótimo trazer o setor público para esse debate, e o ponto de vista da entrevistada é bem pertinente.

regina em 04/09/2009:
O texto é muito bom.

 
PUBLICIDADE
Produtos RH.com.br

+ lidas
+ comentadas
+ enviadas
+ recentes
Produtos RH.com.br

3ª Jornada Virtual de Recursos Humanos

Programa de Autodesenvolvimento



RH.com.br no Twitter


PUBLICIDADE
Os textos publicados não representam, necessariamente, a opinião dos responsáveis pelo site RH.com.br. Confira o nosso Termo de Responsabilidade.
Todos os direitos reservados. É expressamente proibida qualquer reprodução.