Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

RH.COM.BR - Nos últimos anos, o homem deparou-se com uma série de mudanças que acelerou o ritmo da sua vida. Com isso, tornou-se comum as pessoas afirmarem que estão estressadas. O termo estresse ficou popular demais e tem sido usado de forma inadequada?
Alex Born - O termo estresse ganhou conotação maior do que a outrora conhecida versão, devido ao fato de termos a necessidade de nos explicarmos ou até mesmo, de encontrarmos uma justificativa para tudo o que nos acontece. É normal encontrarmos pessoas dizendo-se estressadas por “N” motivos. Por exemplo, se estamos tristes por qualquer motivo, se passamos por uma fase difícil na vida pessoal ou profissional, se nos cansamos por uma atividade física, se um relacionamento vai mal ou está desestabilizado, se apenas discutimos ou se somos contrariados uma única vez em um determinado momento, ou seja, qualquer situação negativa é relacionada ao estresse. O que antes era considerado apenas como cansaço e mal-estar, hoje é levado a sério e muitas vezes, pode mesmo ser estresse, mas, precisamos saber como lidar exatamente com isso, para não nos tornarmos dependentes de uma desculpa criada para nos proteger do cotidiano.
RH - O que realmente caracteriza uma pessoa estressada?
Alex Born - Estresse pode ser qualquer distúrbio que nos impede de realizar determinada tarefa de maneira satisfatória em comparação ao que fazíamos antes. Estresse é a reação do nosso corpo e mente em relação aos estímulos sofridos. Por incrível que pareça não há como mensurarmos os limites para que uma situação de estresse se inicie ou se consolide. Pode por exemplo ser um trauma sofrido em um assalto como mudanças na estrutura organizacional da empresa. Pode ser caracterizado por um relacionamento pesado, pela interdependência, ou pelo estabelecimento de metas. Não existe uma caracterização exata para uma pessoa estressada, pois a mesma pode externar seus sentimentos com tagarelices, explosões, repreensões veladas, exclusões, reclusões, isolamentos, mau humor, reações descontroladas de euforia e tristeza. Talvez, pudéssemos afirmar que o estresse é caracterizado pela impaciência das pessoas em querer resolver todos os problemas de maneira rápida e sem estresse. Essa busca pela felicidade, pela perfeição acaba nos levando à infelicidade, à imperfeição.
RH - Quais os principais fatores que têm desencadeado o estresse?
Alex Born - Poderíamos falar que o ambiente de trabalho é propício para o desencadeamento do estresse ou que as relações familiares podem ser complicadas. Na verdade, sempre ouviremos falar que a situação econômica, as crises políticas, o desemprego, o estresse com os estudos ou com o trabalho, os relacionamentos, a segurança, a saúde, enfim, quase todos os fatores causam estresse. Entretanto, vale a pena lembrar que há 100 anos já era assim. Com raras exceções para alguns novos fatores como o terrorismo, o aquecimento global e alguns outros, os problemas repetem-se. Em meu livro cito que nosso cérebro é capaz de processar “zilhões” de informações, todavia, ainda não conseguimos armazená-las todas e muito menos gerenciá-las de maneira que controlemos nossas mentes e não o contrário. Só para lembrar, nos dia de hoje, um ser humano recebe mais informações em apenas um dia do que um mesmo indivíduo em toda sua vida na Idade Média. Portanto, é fácil explicar que toda essa quantidade de informações nos faz gastar muito mais energia e isso estressa. Alguns indivíduos conseguem gerenciar muitas informações e conversar com várias pessoas ao mesmo tempo no ambiente de trabalho. Entretanto, pode se estressar com facilidade e se tornar agressivo ao ser interrompido por seu filho, enquanto assiste ao telejornal em sua casa. Se tivesse que expor um fator básico para explicar o porquê de o estresse estar tão em evidência, diria que a não utilização de nossa inteligência emocional é significativa para essa onda de estressados.
RH - As organizações têm uma parcela significativa no aumento do estresse humano?
Alex Born - Puxa, que pergunta difícil. Caso diga que sim posso subjugar quem tenta atenuar os efeitos do estresse entre todos. Se digo que não, relevo quem pouco se importa com o que se passa na mente de seus colaboradores. Em minha opinião, as mudanças ocorridas pela nova conjuntura mundial foram e ainda são o maior fator causador da ocorrência do estresse. Na década de 90 vivemos a Era da Tecnologia e agora vivemos a Era da Informação. Tivemos que nos adequar a várias coisas que só víamos em filmes de ficção e passaram a fazer parte do nosso cotidiano e ainda temos que nos adequar às pressões para ‘sabermos um pouco de tudo e de tudo um pouco’. Além disso, as pressões por resultados quase nos obrigam a conquistar um padrão de vida cada vez melhor. O mercado exige isso, a sociedade exige isso e nós nos cobramos constantemente. É óbvio que as organizações têm participação nisso, mas, elas são tão vítimas como vilãs.
RH - É possível administrar o estresse tanto na vida pessoal quanto profissional?
Alex Born - O estresse é administrável sim. Contudo, vale a pena lembrar que é necessário distinguir estresse, depressão e tristeza. Enquanto os dois últimos podem ganhar dimensões avassaladoras, o estresse pode ser considerado um dos fatores causadores dos mesmos. Existem várias técnicas que atenuam o estresse e cada indivíduo deve encontrar o meio pelo qual mais se adapta às suas características e ao seu problema. Acredito muito que a união do autoconhecimento, do entendimento dos diferentes tipos de personalidades que convivemos com o aprimoramento das capacidades de utilização da Inteligência Emocional podem ser relevantes para processos de diminuição e até mesmo, eliminação do estresse. O estresse deve ser tratado com inteligência, independentemente do tamanho que se apresenta.
RH - Que orientações o Sr.daria a uma pessoa que começa a apresentar sinais de estresse e não deseja que o mesmo tome conta da sua vida?
Alex Born - Primeiramente, quero dizer que você já me estressou com esse negócio de “Sr.”, ainda me considero “Peter Pan” (risos). O problema do estresse é que muitas pessoas o tornam maior do que realmente é. Outras repetem com tanto orgulho: “Estou sob estresse!” ou “Ando muito estressado!”, que mesmo que não estejam, acabam ficando. As pessoas devem se conhecer e respeitar limites. Devem tentar entender que existem bilhões de personalidades diferentes e que é necessário convivermos com elas diariamente e respeitarmos essas diferenças. O meu conselho é para que: procurem atividades que balanceiem suas vidas; quebrem paradigmas como as mudanças de hábitos e costumes; busquem por informações e leiam muito a respeito; criem uma identidade própria; imponham limites ao estresse; parem para pensar se o problema é realmente grande suficiente para abalar suas estruturas; comecem a acreditar que precisam mudar de atitude se quiserem viver melhor; procurem âncoras como, por exemplo, frases, filmes, pessoas, conselhos, músicas, enfim, algo que as impulsionem a crescer e a mudar.
RH - Existe um segmento de especialistas na área que afirmam que o estresse pode ser positivo. Qual a sua opinião em relação a essa postura?
Alex Born - “O que não me mata me fortalece”, já dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzche. Se analisarmos o passado, ele nos mostra que após períodos de crises e estresse, pessoas, países e organizações conquistaram resultados excepcionais. De Fernando Pessoa a Beethoven, de Clarice Lispector a Van Gogh, observamos que os maiores gênios da humanidade e também, as pessoas que atingiram o sucesso só o conseguiram após passarem por traumas e estresse. Por outro lado, alguns nomes não sobreviveram muito após saírem desses períodos. São situações antagônicas. Cada caso é um caso. O estresse pode sim, ser um aliado para as conquistas, pois, ele nos impele a mudar e a realizar. Em períodos de estresse a criatividade pode ser aflorada. Mas, é preciso salientar que pessoas que vivem sob estresse por longos períodos podem ter efeitos colaterais e esses nunca são perfeitamente previsíveis. Se o estresse pode ser bom, melhor sem ele.
RH - Até que momento o estresse pode ser administrado pelo indivíduo e quando se torna necessário pedir ajuda a um profissional como um médico, por exemplo?
Alex Born - “Se o fundo do poço chegou e a pessoa ainda se sente caindo, pode ser que esse poço tenha vários fundos. O estresse pode ser administrado quando a pessoa visualiza uma saída e sabe que encontrará um meio. A procura de um profissional, podendo esse ser um médico, terapeuta, consultor, coach, entre outros, deverá ser feita quando aquela luz não aparece ou quando todas as perspectivas foram talhadas. Não aconselho procurar ajuda sempre, pois, como citei acima, o estresse pode servir para dar uma nova identidade ao indivíduo e proporcionar mudanças. Evitar enfrentar o estresse de maneira inteligente pode nos levar a perder a oportunidade de crescer. Porém, vale lembrar que não estamos sozinhos nesse mundo e que o estresse não é algo gerado individualmente, ele tem participação coletiva.
RH - Quem deve assumir a responsabilidade de administrar o estresse no meio organizacional e por que esse profissional é o mais indicado?
Alex Born - A não ser que haja um profissional indicado pela organização, ninguém, em hipótese alguma deverá assumir tal responsabilidade. Essa é uma carga que não deve ser carregada. No máximo, um gestor poderá indicar um profissional, contratar um consultor, coach ou especialista para ampliar os horizontes - no caso da coletividade, ou auxiliar diretamente no problema - nos casos individuais. Fora isso, qualquer tipo de ajuda não passará de conselho e amizade. Pode sim ajudar, mas e se acontecer o contrário?
RH - Quais as medidas preventivas que as empresas devem adotar para evitar que o estresse prejudique os colaboradores?
Alex Born - Melhorar a comunicação e evitar um clima de medo. Quase 100% das organizações são afetadas por um problema comum: a falta de comunicação ou a falha na mesma. A comunicação deve ser transparente e adequada para cada organização. Em meus trabalhos de consultoria e treinamentos, observo que os pequenos e os grandes problemas relacionados ao estresse estão diretamente ligados aos gap’s de comunicação que podem gerar e disseminar o medo dentro de grupos ou de toda uma estrutura organizacional. Aconselho que as empresas que têm problemas de estresse entre seus colaboradores devem passar a focar a fonte do problema, o que origina o mesmo. Medidas paliativas resolvem apenas momentaneamente, mas fazem com que o problema recaia de forma mais danosa e muitas vezes, requerendo soluções drásticas. Em meu livro: “Você é Pessoa ou Tomate?”, que aborda os temas conflitos, estresse, medo e comprometimento, tentei apresentar as três teorias: T.I.M – T.I.E – T.I.R, que acho crucial para o entendimento dos fatores que levam os seres humanos a agirem de determinadas maneiras que formatam suas personalidades, como encaram e vivem a vida.
RH - Quando não administrado de forma correta, que conseqüências o estresse gera à empresas e aos funcionários?
Alex Born - Insucesso. Essa palavra resume tudo, pois a falta de comprometimento, o foco nos resultados, a comunicação precária, falha ou intermitente, os conflitos, enfim esses e outros problemas gerarão perdas e essas o insucesso. É importante diferenciarmos o que é o estresse e o que é apenas um problema solucionável. Em ambos os casos, podemos extrair situações positivas, pois esses revezes que a vida nos apresenta nos fazem criar resistência e essa resistência nos dá uma identidade, essa identidade nos fortalece e nossa força baseia-se na esperança e no poder de acreditar sempre.
RH - O Sr., quero dizer você (risos) teria alguma coisa para dizer aos leitores do RH.com.br?
Alex Born - Sempre deixo claro que existe uma regra e essa, apesar de não ser única, deve ser respeitada: a comunicação é uma reação a algum estímulo. Agora imagine a seqüência: estímulo - comunicação falha - medo - estresse - problema - mais estresse - conflitos ou depressão. Melhor seria: estímulo - comunicação adequada - Resultados excepcionais. Quero agradecer a oportunidade de expressar minhas idéias e me colocar à disposição de quem quiser conhecer o meu trabalho e os trabalhos do Instituto Gestor nas áreas correlatas citadas nessa entrevista. E deixar a frase de entrada do meu último livro:“Se superestimássemos nossas capacidades da mesma maneira que as subestimamos, seríamos tão infinitamente sábios que dominaríamos nossas mentes e não o contrário. Mas, ironicamente, se o cérebro humano fosse tão simples que pudéssemos entendê-lo, seríamos tão simples que não o entenderíamos”.
Palavras-chave: | estresse | controle | Alex Born |
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