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30/09/2013
RH » Qualidade de Vida » Entrevista Enviar Comentar Compartilhar Imprimir

Ter qualidade de vida é possível, até mesmo no dia a dia de trabalho

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Quando se fala em qualidade de vida, muitas pessoas associam rapidamente essa expressão a um ambiente calmo, a uma moradia próxima a um local repleto de verde ou mesmo a uma cidade em que o trânsito não seja caótico. Isso é mais do que compreensível, pois cada pessoa possui uma necessidade individual e que deseja transformar em realidade. Contudo, hoje, a compreensão sobre qualidade de vida não está apenas restrita ao campo pessoal. Ela vai além e passou a fazer parte dos anseios que estão ligados ao dia a dia dos profissionais. Ou seja, tornou-se comum as pessoas desejarem ter qualidade de vida dentro dos "portões das organizações" e essa tônica é tão explícita que as empresas consideradas competitivas investem em ações contínuas, com vistas à Qualidade de Vida no Trabalho - QVT.
De acordo com Carlos Legal, sócio-diretor da Legalas Educação e Qualidade de Vida, consultor e palestrante, uma pessoa física, emocional, mental e espiritualmente saudável contribui para a saúde organizacional. "Por outro lado, quando a pessoa está doente isso representa custos para tratamento de doenças, ineficiência, perda de conhecimento critico, absenteísmo e presenteísmo que geram impactos negativos para o desempenho organizacional", alerta. Em entrevista concedida ao RH.com.br, Carlos Legal faz uma ótima explanação sobre o tema qualidade de vida, inclusive, ao destacar o papel da área de Recursos Humanos neste contexto, considerado até mesmo como um dos fatores responsáveis pela atração e retenção de talentos. Confia a entrevista na íntegra e reflita sobre esse assunto que, cada vez mais, ganha espaço no meio organizacional. Boa leitura!

 


RH.com.br - O entendimento sobre qualidade de vida no trabalho tem sido interpretado corretamente pelas organizações?
Carlos Legal - Se a organização interpretar as ações de qualidade de vida no trabalho como iniciativas deslocadas do negócio e da sua estratégia, considerando-as como um custo ou um investimento secundário, naturalmente ela não dará o devido valor para o tema. Na Sociedade do Conhecimento, o capital humano é um ativo-chave para o negócio e as pessoas doentes não vão performar. A saúde cria a infraestrutura para as pessoas produzirem com excelência e a falta de saúde é prejuízo para a pessoa e para a empresa. Investir em saúde é investir em performance. Gosto de uma metáfora simples, mas que faz muito sentido para mim. Ao comparar uma organização a um organismo vivo, vemos que um corpo é formado por células, que compõem órgãos e tecidos, que formam sistemas e, para viabilizar a vida, precisam estar saudáveis e interagir sinergicamente. Uma célula tem o potencial de contribuir para a saúde ou a doença, suas ações podem edificar ou comprometer a vida. Uma empresa é uma organização formada por pessoas - entidades interdependentes -, que formam áreas e departamentos - por afinidade de conhecimento ou especialização -, que precisam interagir sinergicamente para garantir a eficiência e estratégia da organização. A lógica é a mesma. Uma pessoa física, emocional, mental e espiritualmente saudável contribui para a saúde organizacional, mas quando a pessoa está doente isso representa custos para tratamento de doenças, ineficiência, perda de conhecimento critico - quando um executivo ou profissional se afasta ou morre precocemente -, absenteísmo e presenteísmo que geram impactos negativos para o desempenho organizacional. A saúde do profissional é capital intelectual disponibilizado para a empresa. Pessoas doentes aniquilam seu potencial, não performam como poderiam e representam custos para as empresas. Cuidar da célula é cuidar do todo.

 


RH - A forma como a QVT tem sido cada vez mais abordada, tem levado as empresas a se tornarem mais humanistas ou mais competitivas?
Carlos Legal - É responsabilidade das empresas criarem os contextos capacitantes, caracterizados por ambientes mais humanizados, que garantem segurança, respeito e confiança para que as pessoas sintam-se encorajadas a disponibilizarem seus saberes e conhecimentos para a empresa. A sobrevivência, a sustentabilidade e a inovação das empresas dependem disso. Penso que um ambiente humanizado cria condições favoráveis para as pessoas darem o melhor de si, explorarem seu potencial e desenvolverem seus talentos e atividades de forma mais eficientes. E essa humanização envolve ações que vão desde oferecer um espaço físico adequado para o trabalho, criar condições para o desenvolvimento da pessoa, até lideranças mais maduras e lúcidas. Uma organização precisa ser competitiva no mercado. Então, a lógica é a seguinte. Uma empresa humanizada internamente, com clima e cultura fortalecidas, cria condições essenciais para se tornar mais competitiva no mercado. Cuidar das pessoas ajuda a alcançar resultados mais sustentáveis.

 


RH - Quais os principais fatores que têm estimulado as organizações a investirem na qualidade de vida no trabalho?
Carlos Legal - Penso que os próprios dados da OMS - Organização Mundial da Saúde - ajudam nessa resposta. Com todos os avanços que temos nessa área, ainda os hábitos e o estilo de vida pessoal são responsáveis por 53% dos determinantes de doenças, seguidos por 20% das condições do meio ambiente geral, 10% das condições do meio ambiente do trabalho e 17% de hereditariedade. Há estimativas que cerca de 60% da população é sedentária e problemas como depressão e estresse tem sido a segunda causa de afastamento do trabalho. Isso tudo representa custos, impacto na performance profissional e organizacional. Pessoas saudáveis custam menos e criam a base para contribuírem mais e melhor para a organização realizar sua estratégia. Há também um ponto importante. Investimento e ações de qualidade de vida no trabalho numa unidade de produção é diferente num escritório, pois as necessidades, os perfis e os interesses são diferentes e isso precisa ser identificado antes de qualquer ação.

 


RH - Esse panorama de investimentos em ações direcionadas à qualidade de vida no trabalho tende a aumentar?
Carlos Legal - Sinceramente, não sei. Mas podemos refletir sobre isso. Por um lado, qualidade de vida no trabalho teve um "boom" de investimentos na década de 1990 e 2000, motivado por uma necessidade das empresas reduzirem os custos médicos e fortalecerem suas imagens como socialmente responsáveis. Ao trazerem o tema em pauta, visaram sensibilizar seus profissionais sobre a importância do autocuidado, do autogerenciamento e do equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Hoje, praticamente todas as empresas responsáveis possuem condições de trabalho apropriadas, com espaços ergonomicamente saudáveis que garantem a segurança e a integridade do profissional. Em espaços onde o risco físico é pequeno ou nulo, como num escritório moderno, vejo que as ações de qualidade de vida devem ter um enfoque mais educacional, que ajudem o profissional a mudar um hábito que poderá lhe trazer prejuízos no futuro - por exemplo, habito de fumar, nutrição incorreta, sedentarismo -, fortalecer o engajamento para performance e desenvolver estratégias de combate ao estresse. As ações de QVT são um convite das organizações aos seus profissionais para cuidarem de si mesmos, a prestarem mais atenção com sua própria saúde e hábitos de vida pessoal. Não sei se os investimentos aumentarão, pelo menos no formato que conhecemos. Penso que as organizações desejam que as pessoas tenham mais autonomia nessa área, tornem-se mais engajadas e comprometidas.

 


RH - E os jovens que se encontram no mercado, estão atentos à qualidade de vida?
Calos Legal - Percebo que as novas gerações têm demonstrado uma noção diferenciada sobre saúde, apreciam a harmonia entre trabalho e vida pessoal, são mais ativos, autônomos e querem mais liberdade. Um fenômeno corrente é o fato de muitas organizações atualmente estimularem o home office, possibilitando maior liberdade aos seus profissionais. Observo que, em algumas organizações, as ações de QVT presenciais têm diminuído quando há implantação de home office. Mas a liberdade resultante de uma prática de home office possibilita ao profissional fazer o que lhe dá prazer nos dias que não está na empresa e isso, obviamente, estimula autonomia e responsabilidade sobre si. O home office, inclusive, pode ser considerado uma ação de QVT. E obviamente, nem todos os negócios ou áreas da empresa são passiveis desta prática. Não há uma resposta correta sobre se haverá um aumento ou uma diminuição de investimentos em qualidade de vida no trabalho, é preciso analisar cada contexto de negocio, o momento da empresa e o perfil dos profissionais de forma distinta. Cada caso é um caso.

 

RH - Os profissionais estão mais conscientes de que a QVT não é apenas uma utopia e pode tornar-se realidade?
Carlos Legal - Percebo que os profissionais estão mais conscientes sim. Muitas pessoas querem crescer na carreira de forma sustentável, preservando a saúde, os relacionamentos, aproveitando a vida de forma plena. No passado, esse cuidado muitas vezes não existia. Eu penso que o termo qualidade de vida no trabalho acaba restringindo sua amplitude. Gosto mais de vida de qualidade, tem que partir da vida, não do trabalho. A vida tem um valor fundamental, que quase nunca paramos para pensar sobre ela. O trabalho e a carreira são aspectos importantes da vida, mas não são os únicos, não podem ser os únicos. Um profissional cuidadoso e responsável por si é mais engajado e autônomo.

 


RH - Atualmente, quais os focos mais trabalhados pelas ações de QVT?
Carlos Legal - Segundo pesquisa global realizada pela CPH Health e Buck Consultants com 153 empresas e 250 mil empregados no mundo, os principais riscos ou questões de saúde que impulsionam as estratégias de bem-estar na América Latina são: estímulo à atividade física, à prática de exercícios; nutrição, com direcionamento em uma alimentação saudável; combate ao estresse.

 


RH - Por que essas ações se fazem tão presentes, no dia a dia das empresas?
Carlos Legal - Segundo a OMS, são os hábitos e o estilo de vida que tem o maior impacto na determinação de uma doença e, consequentemente, na manutenção da saúde. É interessante quando analisamos o dado "estimulo a atividade física/exercício" como item prioritário das ações em qualidade de vida e cruzamos com 60% da população é sedentária. Quando pergunto para as pessoas qual o motivo de não serem mais ativas elas costumam dizer: "não tenho tempo". Na realidade, o exercício não é algo prioritário para aquela pessoa naquele momento da vida, é mais honesto ela dizer "não gosto", "tenho preguiça" ou "não quero" e aí ela terá mais lucidez para atacar o problema. Outro elemento que envolve hábito é a alimentação. A maioria das pessoas não se importa com uma dieta saudável e isso também tem impactos negativos para a saúde. Há mais obesos do que famintos no mundo e uma dieta hipercalórica associada à falta de exercício físico regular é o caminho mais curto para inúmeros problemas de saúde. As empresas ainda cumprem um papel educativo que deveria ser das famílias e das escolas.

 


RH -
Qual a solução para que esses fatores negativos sejam neutralizados e a QVT flua nas organizações?
Carlos Legal - A solução está na educação, no conhecimento, em articulados com ações internas que facilitem o acesso dos colaboradores a práticas de autogerenciamento. Muitas empresas vão além da saúde do seu trabalhador, estendendo ações que beneficiam as famílias também, pois não adianta o profissional ter a oportunidade de rever e mudar hábitos e estilo de vida no ambiente de trabalho, mas em casa não encontra suporte e acompanhamento dos outros membros da família na construção dos novos hábitos. Acredito na educação que transforma, que fortalece o protagonismo, a autonomia que empodera as pessoas a realizarem escolhas mais conscientes com relação à sua própria saúde e ao estilo de vida. A QVT estimulou as organizações a saírem de uma postura paternalista com relação aos seus profissionais para uma postura onde se vislumbra reconhecer que cada indivíduo é parte de um todo maior que chamamos organização. A saúde do todo depende da saúde das partes. Cada indivíduo deve assumir a responsabilidade sobre sua saúde física, emocional, mental, espiritual e social, com total amparo da organização onde trabalha.

 


RH - Quais os resultados mais expressivos para as empresas que investem em qualidade de vida?
Carlos Legal - Por um lado, há resultados objetivos que podem ser acompanhados pela redução no índice de absenteísmo, redução de riscos - cardíacos -, entre outros. Mas há resultados subjetivos difíceis de serem mensurados, pois estamos falando do elemento humano, de engajamento, de vitalidade. Como medir se uma pessoa está mais feliz, engajada e como associar isso à produtividade? O fato é que as organizações perguntam "o que vou ganhar ao investir em QVT?". Eu devolveria a pergunta com outra questão "o que vai perder se não investir?". É sabido que organizações com melhores condições de trabalho, que valorizam as pessoas, estimulam a saúde e o desenvolvimento, conseguem reter seus talentos por mais tempo. Isso por si só, já é um resultado expressivo.

 


RH - Onde se encaixa a área de RH, no transcorrer de uma ação de QVT?
Carlos Legal - Penso que o RH tem o importante papel de articulação entre áreas como saúde ocupacional, segurança no trabalho, comunicação, T&D, entre outras para viabilizar o sucesso das ações de QVT. Em muitas organizações, essas subáreas estão subordinadas ao RH, mas em muitos casos, não conversam entre si. Outro papel importante da área de Recursos Humanos é demonstrar para a diretoria e para as lideranças da empresa a relevância das ações de QVT para a estratégica organizacional, mostrando que investir em pessoas não é apenas algo retórico, mas necessidade. Lamentavelmente, quando isso não acontece as ações de QVT perdem potência e aí sim, passam a ser percebidas como custos, não investimento.

 


RH - O que mais o preocupa, quando uma empresa o chama para elaborar uma ação direcionada à qualidade de vida no trabalho?
Carlos Legal - Minha primeira preocupação são aquelas empresas que adotam como único critério a contratação pelo menor preço, sem analisar o valor agregado de uma determinada solução ou mesmo a reputação do fornecedor. Isso pode ser uma faca de dois gumes, pois um serviço mal feito por um fornecedor mal preparado queima o fornecedor e também a solução. Minha segunda preocupação é o apoio da média gerência, aquela que está em contato direto com o profissional. São eles que podem fortalecer ou enfraquecer as ações de QVT, estimulando ou não a participação de seus subordinados.

 

Palavras-chave: | Carlos Legal | qualidade de vida no trabalho | OMS | home office |

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