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24/03/2008
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O estresse está à sua frente?

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Em várias situações do cotidiano o estresse tem sido apontado como o vilão responsável pela ‘explosão’ emocional, em determinados momentos, gera conflitos ou, então, tornou-se o ponto inicial para a falta de motivação das pessoas. E isso vale tanto para a vida pessoal quanto profissional. Seja por um motivo ou outro, a realidade mostra que o estresse é um fator presente na vida de qualquer pessoa e ninguém está livre dele. Dessa forma, o que resta ao homem é saber administrar os fatores considerados estressores e, assim, garantir uma melhor qualidade de vida seja junto à família, aos amigos e no ambiente de trabalho.

Uma pesquisa apresentada em maio de 2007, durante a realização do 160º Congresso Anual da Associação Americana de Psiquiatria, em San Diego (EUA), revelou que problemas relacionados à depressão como distúrbios do sono, fadiga extrema e falta de concentração aumentam o impacto da doença na vida do profissional. E isso, vale destacar, pode acontecer principalmente junto a pessoas que ficam mais expostas à competitividade e. conseqüentemente, tornam-se mais vulneráveis ao estresse. O estudo apresentado no congresso norte-americano apontou ainda que quando esses sintomas manifestam-se de forma simultânea elevam significativamente os custos para o tratamento. A pesquisa realizada com aproximadamente 14 mil funcionários de duas empresas americanas, fez uma avaliação da estimativa dos profissionais em relação à produtividade no trabalho (presenteísmo) e aos gastos com a saúde do trabalhador.

As pessoas que fizeram parte desse estudo e que relataram apenas depressão apresentaram aumento no custo anual das organizações e aquelas que afirmaram ter fadiga ou problemas do sono associados à depressão tiveram a média anual de custos majoradas. Segundo Márcia Merquior, psicanalista e responsável pelo Departamento de Avaliação do Estresse Emocional da Vita Check-up Center, no Rio de janeiro, é somente com um bom gerenciamento do problema que as pessoas serão capazes de reduzir os níveis de estresse e conduzir, com mais eficácia, as constantes pressões diárias, cada vez mais presentes no cotidiano.

“O trabalho excessivo que leva a uma invasão da vida pessoal, com empobrecimento da qualidade de vida, promove uma sensação constante de desconforto e angústia que podem sim se tornar crônico e levar a uma tendência depressiva, principalmente, quando há também ausência de reconhecimento e premiação pelo esforço empreendido”, afirma Márcia Merquior, ao acrescentar que, no entanto, os indivíduos devem sempre ter em mente que para se configurar realmente um quadro depressivo, este é também determinado por uma tendência subjetiva da pessoa em questão.

Quando questionada sobre as razões que levam as organizações a se tornarem um campo propício para a o surgimento do estresse e da depressão entre os profissionais, a especialista afirma que o nível maior de alienação do processo produtivo imposto pelas novas tecnologias, as pressões por resultados cada vez mais competitivos, o enxugamento da mão-de-obra, tornam o campo de trabalho de um grau de exigência por vezes sobre-humana.

Ela comenta que o estresse continuado, cronificado no nível três, por exemplo, onde existe um sentimento de “guerra perdida”, ou seja, de impotência diante das pressões cada vez mais fortes e abrangentes, leva à exaustão física e emocional e ao possível aparecimento de algumas doenças tais como hipertensão, gastrite, alergias reincidentes, tendência ao alcoolismo ou à dependência de drogas. O surgimento dessas doenças, por sua vez, vem aumentar a ansiedade de “não conseguir dar conta do recado”, alimentando um ciclo vicioso e perverso. E isso, é claro é visível no meio organizacional.

Depressão e trabalho – Como não poderia ser diferente, quem é atingido numa escala mais acentuada de estresse no ambiente de trabalho apresenta sintomas como se estivesse com qualquer outra enfermidade. Márcia Merquior diz que, antes de tudo, é fundamental nesse caso entender o que se chama de depressão. Ela explica que nesse momento o que está sendo considerado não é um quadro psicótico, com sintomas de paralisia e isolamento emocional e embotamento afetivo, podendo configurar uma catatonia em seu nível mais grave.

“Estamos sim nos referindo a um quadro reativo a condições desfavoráveis de exercício pleno da subjetividade em suas diversas possibilidades de trabalho, estudo e lazer. Portanto, há um progressivo desinteresse do mundo ao redor, uma descrença da possibilidade de vencer a batalha e de ter sucesso nos projetos. Instala-se uma sensação de impotência, de esgotamento dos recursos para lidar com as adversidades; de estar, portanto, sendo devorado ou sufocado”, ressalta, ao mencionar que esse quadro gera a ansiedade constante, medos, podendo levar inclusive à Síndrome do Pânico.

Outros sintomas também surgem “no meio do caminho” como a insônia – uma tentativa do indivíduo manter-se sempre alerta ou, então, ao contrário, ao sono excessivo, como forma de fuga. Existem ainda várias formas de fuga, como o alcoolismo e demais vícios. O ser humano diante da tensão procura sempre meios de descarregar esta tensão. Para tanto vai utilizar recursos externos, que podem ser positivos como os exercícios, esportes, diversos outros interesses prazerosos. Ou, então, vai implodir a tensão, adoecendo.

Em conseqüência, todo esse quadro acaba gerando problemas e reflexos à vida tanto pessoal quanto profissional. No campo organizacional, por exemplo, a depressão gerada pelo estresse provoca o absenteísmo (ausência no trabalho, por vários motivos), presenteismo (presença, mas sem motivação e criatividade), além da falta de produtividade e motivação para novos investimentos pessoais. Na visão da especialista, adotar formas mais humanizadas de atividade profissional, usar meios de “conversa” e amparo ao trabalhador, ter políticas de valorização de mão-de-obra, implantar iniciativas de premiação e formação constante podem ser ações adotadas pelas organizações como forma de proteger os colaboradores contra os fatores estressores.

“Acho que um novo paradigma deve ser construído, até mesmo porque é muito custoso tocar profissionais ou custear gastos com sua saúde. A produtividade requer disposição e motivação para a criatividade de novas possibilidades. Reduzir os trabalhadores a meros robôs, leva ao desgaste inevitável e à pobreza criativa. Não esqueçamos que só os humanos produziram cultura e civilização”, alerta Márcia Merquior.

Escala de estresse - Para se entender melhor as conseqüências que o estresse provoca ao ser humano, é importante ter ciência dos níveis do estresse e a influência que cada um pode ter nas pessoas.

No nível 0 de estresse, localizam-se as pessoas que estão com a vida calma, realizando suas atividades sem nenhum nível de exigência e ansiedade. Como se vê, são raras.
No nível 1 de estresse, estão as pessoas que apesar de exercerem atividades profissionais com certo nível de exigência, administram bem o nível de estresse e ansiedade, não permitindo que este interfira em sua qualidade de vida.
No nível 2, é detectado uma fase inicial de estresse, onde as pessoas encontram-se submetidas às exigências profissionais ou indivíduos com comprometimento de sua qualidade de vida, apresentando já alguns sintomas, como palpitações, irritabilidade, insônia, dores de cabeça, dores no estômago. Esses profissionais estão em "sinal de alerta".
No nível 3, há uma cristalização desses sintomas com sua "cronificação": taquicardias, ou até mesmo o desenvolvimento de hipertensão, gastrites, tendência à explosões, insônias constantes, enxaquecas, sudorese aumentada e outros. Nesse nível, afirma-se que são pessoas que se sentem preparadas para guerra.
No nível 4, há o agravamento dos sintomas, mas com características de exaustão: o organismo como um todo exauriu suas forças de guerra, e se sente derrotado, apresentando tendências depressivas e autodestrutivas, como tendência alcoolismo e ao uso de medicamentos, inibição afetiva e sexual, insônias graves ou o inverso, "só pensa em dormir", desânimo e baixa produtividade em geral.

A psicanalista lembra que uma situação no trabalho, mais tensa e competitiva, pode ser vista como decisiva para a avaliação do profissional. ”É preciso que as organizações adotem um conjunto de ações para tornar o dia-a-dia dos funcionários mais produtivo e sem prejuízos para a saúde física e mental, tais como ginástica laboral, sessões de fisioterapia, inclusão e médicos conservadores, promoção de palestras sobre estresse e qualidade de vida, dinâmicas de grupo, entre outros. Isso trará benéficos não apenas para as pessoas que trabalham na empresa, mas para o empregador que terá uma equipe mais disposta e criativa”, conclui.

Palavras-chave: | estresse | qualidade de vida |

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