Por Élida Bezerra para o RH.com.br 
Negligenciada por um longo tempo, a saúde mental é fundamental para o bem-estar das pessoas. No universo corporativo, quando o assunto é a qualidade de vida do trabalhador, muitas empresas orgulham-se dos programas desenvolvidos pelos seus RHs. No entanto, muito mais que estar atenta à saúde física do funcionário, as organizações devem cuidar também da saúde mental dos colaboradores.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde - OMS - as doenças psiquiátricas são resultantes de diversos fatores e afetam cerca de 450 milhões de pessoas. A depressão grave é a principal causa de incapacitação em todo o mundo e está no quarto lugar entre as dez principais causas de patologia em nível mundial.
De acordo com a médica psiquiatra e psicanalista Beatriz Rangel, as doenças psiquiátricas estão sempre acompanhadas de alterações de comportamento, distúrbios mentais, emocionais ou físicos. "A doença psiquiátrica abrange todas as doenças que apresentam alguma deficiência mental. Essa, por sua vez, é um tipo de distúrbio no qual há déficit funcional e intelectual acompanhado de limitações no funcionamento adaptativo como hostilidade, comunicação e dificuldade de relacionamento social, entre outros", comenta.

Perfil - No ambiente organizacional, a psicanalista afirma que não há um perfil específico para quem possui alguma doença desse tipo. Ela informa que é preciso que seja feita avaliação para o diagnóstico. "No caso corporativo, a manutenção de ações preventivas auxilia a identificação do colaborador e no acompanhamento sem que prejudique na produtividade no trabalho", completa. Beatriz Rangel observa que o diagnóstico acontece, geralmente, quando há percepção de mudança de comportamento acompanhado de sofrimento e dificuldade de relacionamento. No entanto, quem deve fazer o diagnóstico final é sempre o médico psiquiatra.
Para ela, todas as doenças psiquiátricas podem acometer o trabalhador por motivo ligado diretamente ao ambiente corporativo. "Também há variações na intensidade da doença com quadros leves ou acentuados, principalmente, da ansiedade e da depressão", explica, ao acrescentar que o uso de drogas também pode indicar reflexo de uma doença psiquiátrica.
As causas - No cenário organizacional, as doenças psiquiátricas podem ser causadas por diversos fatores, dos quais algumas delas aparecem exclusivamente pela ação do ambiente externo. Beatriz Rangel comenta que os fatores mais comuns no ambiente de trabalho são pressão demasiada, excesso de crítica ligada diretamente às atividades de determinado funcionário e humilhação, além dos assédios sexual e moral. Com isso, a companhia pode ter problemas como queda de produtividade, excesso de ausência no trabalho - absenteísmo - e desligamento de colaboradores que poderiam ser evitadas com orientações e tratamentos.
"Há também alguns colaboradores que sofrem ameaças de seus superiores. Precisamos ter claro que no Brasil ainda há uma disparidade entre as companhias no quesito relacionamento com os funcionários. Temos empresas que dão todo o suporte aos colaboradores com benefícios, remuneração e até prêmios. Em outros casos, temos organizações que contam com salário muito abaixo do mercado ou atrasos frequentes na remuneração, sem diminuir a cobrança excessiva pela produtividade dos seus trabalhadores", alerta a médica.
As consequências - Dependendo do tipo de doença psiquiátrica diagnosticada, o trabalhador pode ter o seu desempenho profissional e pessoal prejudicado. De acordo com Beatriz Rangel, para transtornos ligados à ansiedade, tem-se um quadro que costuma apresentar dificuldade de relacionamento e de se expor nas atividades profissionais e pessoais como, por exemplo, falar em público. Já no caso da depressão, o que se observa é a dificuldade de concentração e a falta de interesse com queda de produtividade. Para ela, os sintomas auxiliam na identificação do tipo de doença psiquiátrica a ser tratada.
Preconceito nas empresas - Beatriz Rangel alerta que ainda há muito preconceito nas organizações para com as pessoas que sofrem de alguma doença psiquiátrica. "A doença psiquiátrica ainda é confundida com loucura e isolamento do paciente. Há quem considere que este tipo de doença traz automaticamente a incapacidade e automaticamente passa a se ter um tratamento pessoal diferenciado", aponta, ao mencionar que o preconceito ainda é a maior barreira para diagnósticos, tratamentos adequados e manutenção das relações saudáveis no universo profissional. Desse modo, os representantes das empresas devem posicionar-se diante desses colaboradores da mesma forma que fazem com os funcionários que apresentam outros tipos de doença como diabetes, problemas cardíacos e outras tantas que podem acometer qualquer trabalhador.
RH em ação - Para Beatriz Rangel, o a área de Recursos Humanos tem um papel importante para o tratamento dos colaboradores que precisam de acompanhamento psiquiátrico. A primeira atitude é não estigmatizar. Não colocar em ambiente hostil. Fazer uma análise de como é possível adequar a atividade profissional com as dificuldades ligadas à doença. de acordo com ela, a empresa precisa perder o medo e entender como lidar com esse colaborador; assim como faz com qualquer outro tipo de doença. "Caso o colaborador apresente um câncer de pele, por exemplo, não será direcionado a atividades que lhe deixarão expostos ao sol. Ou ainda, o trabalhador que tem problemas cardíacos realizar serviços que necessitam de esforço físico", exemplifica.
Para ela, a doença psiquiátrica precisa ser vista como qualquer outra doença. "Há uma série de ações dos departamentos de Recursos Humanos com foco na qualidade de vida do trabalhador. Dentro disso, deve estar embutido os conceitos de cuidado com a saúde mental de quem trabalha na companhia. Não deve ser tratada como algo extraordinário", comenta.
Por fim, a psicanalista sugere programas e atividades em prol de uma melhor qualidade de vida para os seus colaboradores. "Cuide de seus funcionários. Na parte psiquiátrica é possível elaborar projetos que melhorem a relação entre a empresa e o colaborador. Grupos psicoeducacionais ajudam muito no esclarecimento das doenças e na queda de tabus que são barreiras para adequar o ambiente corporativo e evitar novos problemas. Basicamente, é preciso não ficar refém do preconceito", conclui.
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