Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 
Dormir ao volante um perigo que pode gerar sequelas graves e levar à morte. Hoje, observa-se que a preocupação com esse fato, presentes em todas as estradas brasileiras, não é restrita apenas aos que conduzem carros de passeio, mas também às empresas que têm nos veículos automotores o foco do negócio. Para se ter uma ideia um estudo realizado pelo Instituto do Sono, da Universidade Federal de São Paulo, apontou que 16% dos motoristas de ônibus já cochilaram enquanto conduziam o veículo. Os dados revelam, ainda, que condutores com doenças relacionadas à sonolência têm duas a três vezes mais chances de se envolverem em acidentes. Ou seja, mais uma vez a máxima de que volante e sono são uma péssima combinação.
Diante dessa realidade, as empresas de transportes de passageiros, Viação Águia Branca e Salutaris, instituíram o Programa Medicina do Sono. O resultado desse trabalho é que há dez anos não há registro de acidentes por sono, em suas 315 linhas de operações. De acordo com Klinger Sobreira, diretor de Operações da Viação Águia Branca e Salutaris, a partir da década de 90, quando a explosão do crescimento de automotores foi tornando as rodovias mais perigosas, a Águia Branca, consciente de sua responsabilidade em conduzir vidas humanas, intensificou ações objetivas no sentido prevenir acidentes de trânsito.
A primeira delas voltou-se para os motoristas, a partir de uma seleção rigorosa, com ênfase aos testes psicológicos e prática na direção-veicular em rodovias. Na sequência, foram realizados treinamentos contínuos, visando sedimentar uma consciência de direção defensiva. Em 1997, a companhia adotou os testes bafométricos em todas as garagens com tolerância-zero e se criou, então, uma teia preventiva, visando eliminar as vulnerabilidades no sistema. "Porém, temos horários predominantemente noturnos, uma questão, que não conseguíamos debelar, ficara em aberto: o sono. O ser humano é imponderável, acredita, mesmo alertado, que pode vencer um eventual sono estando no volante. Isto nos levou a discutir o problema com um especialista o Dr. Sérgio Barros. Da discussão do problema, nasceu, em 2000, o Programa da Medicina do Sono, empreendimento original e pioneiro no Brasil", conta Klinger Sobreira.
A Viação Águia Branca foi a primeira empresa fundada pelo Grupo Águia Branca e está no mercado de transporte de passageiros rodoviários há 64 anos. A empresa integra a Unidade Passageiros do Grupo Águia Branca, juntamente com a Viação Salutaris - incorporada à estrutura da Águia Branca - e a TRIP Linhas Aéreas. A sede da empresa fica em Campo Grande, Cariacica-ES. Pssui três Superintendências Regionais nos Estados do espírito Santo, Bahia e São Paulo, e mais 12 núcleos operacionais, comandados por gerentes. Cona com cerca de 3.700 colaboradores. Por ano, o faturamento anual da empresa é 290 milhões reais, e 11 milhões de passageiros são transportados. As viações Águia Branca e Salutaris possuem juntas uma frota de 836 veículos. As duas empresas atendem 315 linhas intermunicipais e interestaduais regulares de ônibus e percorre mais de 76 milhões de quilômetros.
Implantação do programa - Ao ser convidado para o desafio lutar contra o "sono" dos funcionários e com isso, evitar acidentes que ceifassem vidas humanas, o Dr. Sérgio Barros engajou-se de corpo e alma na estruturação do programa. A semente inicial foi lançada e teve o apoio de todo o corpo gerencial. As mensagens, seguidas de medidas objetivas, mostravam aos motoristas os propósitos do programa direcionados principalmente às melhorias de sua qualidade de vida no que tange à alimentação, jornada e repouso.
Em seguida, vieram as ações preventivas concretas. Os testes de vigília e fadiga, as salas de estimulação do alerta, a alimentação gratuita e adequada, a instalação dos laboratórios de polissonografia nas garagens localizadas nas cidades de Salvador, Campo Grande e Barão de Angra. "Os estados patológicos eram detectados e tratados. O motorista via a empresa assisti-lo e apoiá-lo no seu processo de recuperação. Hoje, o motorista, quando sente alguma disfunção de sono, busca diretamente o médico", enfatiza o diretor de Operações da Viação Águia Branca e Salutaris.
Vele destacar que a Assessoria de Medicina do Sono, coordenada pelo Dr. Sérgio Barros, está vinculada diretamente à Direção de Operações da Unidade de Passageiros, e atua de forma harmônica com a Gerência do SESMT/Segurança de Trânsito, estabelecendo-se uma grande malha preventiva. Ao ser indagado sobre a receptividade dos profissionais em relação ao programa, Klinger Sobreira afirma que as ações como, por exemplo, a mudança de hábitos alimentares tornaram-se parte da cultura da Águia Branca.
Ele enfatiza que os próprios motoristas, quando não se sentem bem, tomam a iniciativa de buscarem o Programa de Medicina do Sono. A iniciativa corporativa, por sua vez, acompanha todos os motoristas e caso surja alguma anormalidade nos profissionais, uma ação é imediatamente adotada. O interessante é que os próprios pacientes veem o programa como um benefício para eles e os paradigmas que poderiam servir de obstáculos são superados, através de um processo educativo que já dura mais de dez anos.

Viagens sem sono - Durante as viagens, os motoristas da Viação Águia Branca e Salutaris contam com pontos de apoio para se manterem "longe do sono", ou seja, eles têm acesso às Salas de Estimulação localizadas na Bahia: Ipirá, Santo Antônio de Jesus, Milagres e Eunapólis; no Espírito Santo: São Mateus; no Rio de Janeiro: Campos e Barão de Angra; na Minas Gerais: Fervedouro. Essas salas possuem uma iluminação poderosa - 5000 lux - inibidora da produção de melatonina, orientações para ginástica leve e bicicleta, além de fornecer uma alimentação adequada gratuita. Os motoristas, após 20 minutos, saem em condições revigoradas para prosseguimento da jornada. Klinger Sobreira afirma ao adotar essa política de prevenção e de qualidade de vida, a empresa está cumprindo sua responsabilidade social junto aos funcionários e aos clientes, bem como faz a sua parte para reduzir os acidentes nas estradas brasileiras.
Segundo avaliação realizada com os motoristas, o desempenho de quem frequenta as salas de estimulação melhora em até 80%. Outra ação desenvolvida nas salas é oferecer uma alimentação leve e saudável aos motoristas. Isso evita o jejum prolongado, como também o consumo de alimentos de difícil digestão, que podem contribuir para a sonolência e a fadiga excessiva. Ingredientes perigosos para quem precisa conduzir um veículo.
Mais saúde - Um fato contribui significativamente para o sucesso do Programa Medicina do Sono é sem dúvida alguma o fator mudança. Para isso, o Dr. Sérgio Barros acreditou em ações focadas para estimular nos motoristas a adotar hábitos saudáveis, como a prática de exercícios físicos, para combater problemas como pressão alta, obesidade e índices elevados de colesterol no sangue. Esses fatores, se não tratados adequadamente, interferem na qualidade do sono e comprometem o desempenho dos profissionais nas estradas, aumentando os riscos de acidentes causados por sono ao volante cita o Dr. Sérgio Barros. Ele explica que o programa não pune o colaborador que possui distúrbios do sono, mas leva a pessoa ao tratamento de forma que seja curada e possa exercer sua profissão com mais segurança.
Também faz parte do Programa Medicina do Sono a realização de testes de avaliação do tempo de reação a um estímulo a que os motoristas são submetidos quando começam (vigília) e quando terminam a viagem (fadiga). Esses testes medem, por exemplo, o tempo de reação em segundos. Os resultados são armazenados em um banco de dados, onde cada motorista possui um histórico próprio. Isso permite detectar possíveis distúrbios e indicar se existe a necessidade de se fazer um tratamento e acompanhamento preventivo com cada um. Até o momento, o Programa Medicina do Sono já contou com um investimento da ordem de sete milhões de reais e em dez anos de existência consolidou: a realização de dois milhões de testes de vigília e fadiga; a instalação de 10 salas de estimulação do alerta e de três laboratórios do sono; uma média de 900 atendimentos a profissionais por ano; e 2,5 mil exames de polissonografia.
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