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23/03/2010
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A ficha e o candidato

Por Luís Sérgio Lico para o RH.com.br

Nestes tempos de "aceleração" de consumo, estamos às voltas com uma massa inumerável de solicitações, pedidos e tentativas de venda, que nos chegam diariamente. Entre elas, os pedidos daqueles que procuram por uma posição no mercado de trabalho. A tentativa é legítima e, eu mesmo quando posso, repasso vagas à minha rede de contatos. Mas, quem se der ao trabalho de analisar, mais detalhadamente as informações que aterrissam em nossos e-mails, pode ficar seriamente desmotivado. Toda vez é a mesma coisa: Eu não anunciei nada, mas chove currículos em minha caixa postal. Imagine nas máquinas dos selecionadores...

Outro dia, um destes currículos me chamou a atenção. Não deveria, mas resolvi responder, enumerando os equívocos, dando dicas, corrigindo heresias mesmo correndo o risco de não ser compreendido. Depois que enviei a missiva (um e-mail de 10 parágrafos pode apavorar as pessoas, que normalmente tem dificuldades para ler mais que 4 linhas), vi que poderia dar destinação mais útil à discussão, caso propagasse a informação a todos que vagam na erroneamente da Web, procurando uma nova colocação e não sabem o motivo de ninguém os veem. As dicas abaixo podem ajudar a sua visibilidade, se estiver disposto a ler até o final.

Ah! É claro que o destinatário não respondeu, então vejam vocês o que aproveitam deste pequeno manual de marketing estratégico para desempregados. Sem ironia!


Caro amigo:

Recebi seu currículo, embora não haja solicitado ou tenha vagas. Mas, em seu panfleto, não pude deixar de notar coisas que, certamente manterão você na sombra do desemprego por muito tempo. Por exemplo, no e-mail há um pedido para encaminhamento. Eu não lhe conheço e você antes de me dar bom dia, pede que eu encaminhe seu material. Nestes tempos modernos, não confie que alguma pessoa irá enviar suas mensagens "aos cuidados de...", só porque está no campo assunto. O comportamento mais provável é deletar, imediatamente, o incômodo e-mail. Esqueça tudo o que lhe ensinaram (se for o caso) e inove. Ainda mais se tem pretensões na área de vendas! Para buscar algo, o mínimo necessário é saber o que se deseja, descobrir como fazê-lo e, principalmente, direcionar seus esforços com eficiência.

Pense bem: hoje em dia, com a massificação e a facilidade das comunicações e das instâncias virtuais interativas, padecemos de um gigantesco overflow. Quer dizer: excesso de demanda informativa e aumentos diários na carga de trabalho, fato este que leva - principalmente um selecionador - a desconsiderar quaisquer solicitações fora do quadrado. Mude a estratégia e foque onde você tem mais chances. Analisar seus pontos fortes e fracos já é um começo para isto. Se você é vendedor, cuidado: Saber oferecer é tudo. Venda inteligentemente e não arduamente (sell smarter, not harder). Aliás, o que você quer mesmo vender? Você não disse!

Depois, faça um esforço e pense em cenários, não apenas em sua necessidade de trabalho. O seu currículo tem que cumprir a proeza hermenêutica de informar, convencer e comprovar os fatos ali narrados. Se possível, em uma só folha, no máximo duas. Além disso, a apresentação deve especificar detalhes de suas competências e suas realizações, não de sua autopercepção (seus elogios auto-referenciais). Desculpe, mas em nível organizacional, ninguém quer saber o que você acha de si mesmo, apenas se possui ou não experiência e conhecimento suficiente. Deste modo é imperativo listar as realizações, os detalhes sobre operações e as responsabilidades no histórico profissional - de forma estruturada e compatível com a escolaridade informada. Aliás, quando puder volte a estudar, pois o futuro já chegou. Não dá para deixar um departamento na mão de uma pessoa que não esteja atualizada ou há décadas longe da faculdade.

E mesmo que você seja um expert, repetir a mesma descrição é ponto negativo no currículo, bem como informar áreas discrepantes ou não complementares, pois o seu foco é em desenho industrial, vendas ou treinar os funcionários de seus clientes? A redação pode comprometer mesmo o profissional capacitado. A ânsia de enumerar qualidades acaba tendo o efeito oposto ou você acha mesmo que o selecionador deveria pesquisar sobre dados adicionais? Ele não tem tempo para isto, e, francamente não se interessa por você mais que três minutos...

Outra coisa é a falta de objetivo: currículos sem mencionar área ou cargo não passam nem pela primeira peneira. Se você tem experiência em multinacionais, porque não conta mais detalhes sobre suas realizações? Aliás, se você sabe alguma coisa de diferente ou pode abordar a questão em termos práticos, por que não fazer? Faltou o dizer de suas funções. Descrição de cargo não é atestado de competência, o que importa é a quantidade de responsabilidades e a maturidade técnica e psicológica do candidato. Nomenclatura corporativa é mero amortecedor psicológico que pode esconder coisas estranhas e atividades operacionais. Chefe de observação de frota, pode ser um charmoso epíteto para zelador de garagem. Como você comprovaria sua descrição funcional, caso fosse solicitado? E em relação à qualidade?

Parei para lhe responder, porque acredito que estas dicas lhe ajudarão. Você é parte de uma questão importante no cenário do mercado de trabalho, ou seja: a eficácia da divulgação de currículos e quais os canais existentes - inclusive as formas-padrão aceitáveis para se fazer "achar" pelos futuros e/ou prováveis empregadores. Claro que não entrarei no mérito ético de questionar o óbvio: são sociopatias excludentes, que designam estes padrões e muitos podem ser acusados de alto teor de lesa-humanidade. No entanto, são moedas correntes nas práticas de seleção e ninguém irá tirar o foco dos resultados. A lei envelheceu e há uma determinação econômica do mundo. Perdemos de certo modo o elã humano, pela sujeição a novas instâncias: somos contribuintes, consumidores e cidadãos. O desempregado, normalmente é um profissional invisível. Mas, esta é justamente a sua montanha, cabe a você movê-la. Não fique aí, parado! Tente aprender as novas linguagens e supere obstáculos. Reinvente sua carreira através da atualização e considere outras formas de atuação profissional. Se quiser, acesse meu site e baixe meu artigo sobre os currículos modernos, veja outras fontes também.

O grande problema é que, devido à velocidade exponencial das mudanças, a terceirização de recrutamento é uma realidade. As empresas lançam um desafio em forma de perfil e os profissionais identificados como aderentes a ele são selecionados. Normalmente não se vê o entorno demográfico, ou seja, o capital humano em suas relações com o meio social, assim, para não falar muito difícil, podemos concluir que, a grande jogada, atualmente é aumentar as chances de ser notado e selecionado. Para isso, deve evitar tudo o que irrita aquele que recebe e-mails ou contatos virtuais. A melhor maneira de ajudar este profissional (que, aliás, pode estar buscando justamente Você!) é oferecer um material profissional de trabalho. Não corra o risco de parecer amador ou imaturo em sua apresentação, pois - especialmente no Brasil - têm-se a questão do "jeitinho brasileiro", da flexibilidade total de caráter e do discurso, que as organizações não aprovam. Tente gerar empatia e confiança em suas competências.

Faça o percurso contrário de milhares de candidatos a uma vaga: revise sua apresentação de forma que possamos ver, através dela, o que você indica possuir. Ensaie o que vai dizer e como se comportará, além de pesquisar tudo sobre a vaga. Naturalmente, além de tarefa técnica, conforme pudemos comentar, existe outro ponto importantíssimo a ser considerado. Se o caminho virtual da comunicação, por exemplo, como um simples e-mail, se dá em termos de campo de transmissão eletrônico-energético, via computador, então falamos de decodificação de energia. Então, use a mais poderosa energia à sua disposição e modifique o trajeto de seu currículo. Faça, através de seu pensamento que ele encontre o caminho até as mãos daquela pessoa que poderá avaliá-lo corretamente e oferecer a possibilidade de trabalho. Se ele estiver a contento, será como bater na porta. E ela se abrirá. A fé, aplicada às coisas práticas, nada mais é do que a manifestação de um campo de energia, que por sua vez pode fazer toda a diferença. Sem ela, as montanhas são muito difíceis de mover.

Naturalmente, para os que fazem a aposta na transcendência, diria filosoficamente Pascal. Se não é o caso, paciência. Ao menos, refaça seu currículo ou delete meu e-mail de sua lista.

 

Palavras-chave: | seleção | recrutamento | currículo |

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COMENTÁRIOS (9)
Luiz Souza em 28/04/2011:
Achei que a resposta foi realmente uma Consultoria Gratuita. Mas devemos respeitar a ignorância do próximo... acho que uma ajuda não solicitada, não é absorvida. Li em um dos comentários que "Hoje em dia, as empresas exigem muito a proatividade dos candidatos, o que estimula o envio de curriculuns sem haver vagas anunciadas" mas isto varia de acordo com a cultura a empresa. Algumas organizações valorizam o envio constante de currículos, outras não. Cabe ao aspirante à vaga procurar saber sobre as formas de candidatura antes de se candidatar.

Julise em 02/02/2011:
Olha, foi bobeira do candidato não responder seu email. Recebeu uma consultoria gratuita! Brincadeiras a parte, vejo muitas pessoas reclamando que não encontram uma vaga "a sua altura", mas quando vejo alguns currículos e apresentações (incluindo-se também a roupa usada na entrevista), fico pensando o que querem realmente: um emprego ou trabalho? Bom, gostei realmente da visão. Parabéns e obrigado por dividir conosco. Abraços, Julise

Tais em 13/01/2011:
Com todo respeito à "Vossa Senhoria", não acredito que isso está publicado em um site de RH! Hoje em dia, as empresas exigem muito a proatividade dos candidatos, o que estimula o envio de curriculuns sem haver vagas anunciadas. Isso para mim não passou de um descontrole emocional de sua parte, uma vez que não foi mencionado o pedido do remetente de uma análise de curriculum!

Juliana Souza em 23/11/2010:
Olá, Luis Sérgio. Muito interessante as tuas palavras. Também sou profissional de RH em busca e novos conhecimentos sempre, por este motivo visitei este site, respeito muito seu ponto de vista e achei interessante a visão como R&S, porém, no afã do desespero em busca do mercado de trabalho as pessoas acabam redigindo um curriculo de qualquer maneira e isso acontece também no ato das entrevistas. Nós entrevistamos candidatos despreparados e temos que lidar com esta situação, mas nada justifica agredir com palavras as pessoas, pois cada situação é uma situação e a nossa nunca será a melhor ou a pior. Acredito que um pouco de relacionamento interpessoal cabe a você como profissional de Recursos Humanos, pois além de lidar com candidatos em busca de uma nova oportunidade dentro do mercado de trabalho, estamos lidando com Humanos... o próprio nome já diz ( recursos humanos), temos que estar preparados para lidar com pessoas e quando falamos de pessoas no geral receberemos currículos diversos e candidatos despreparados, mas se todos fossem mestres não precisariamos recrutar... De qualquer modo acredito que você é um profissional capacitado a dar e receber novas opiniões, ajudando assim a acrescentar! Att, Juliana

André Pinheiro em 27/09/2010:
Me desculpe, mas seus comentários foram péssimos se tratando de um profissional da área de R&S. Atacar candidatos da maneira como você fez não ajuda em nada pessoas que já estão sentindo-se desmotivadas em razão do desemprego. Acredito que você deva reavaliar seus conceitos e valores como profissional da área.

Michele Neri em 03/08/2010:
Adoreiii, tudo que eu estava procurando. Esse tipo de comentário só vem a somar em minha vida, pois é um "abre olhos" desses que estou precisando para engressar no mercado de trabalho. Fantástico!

Alessandro Siqueira em 06/05/2010:
Vamos ponderar... Nem sempre um especialista na área de Tecnologia, Mecânica, Contabilidade e outros, são também especialista em montar seu próprio curriculo. Concordo quando diz que os curriculos deveriam ser melhor elaborados. Porém, acredito também na sensibilidade do profissional de Seleção, que sabe - ou deveria saber - que há inúmeros profissionais competentes que não sabem sequer usar o computador. Sendo assim, na minha visão, sobre o texto / opinião é muito relativo. Se estivermos contratando um profissional para área de RH, MKT, algum Gestor, ótimo! Agora, tente fazer esta mesma avaliação quando se está a procura de um Soldador Insdustrial (profissional)! Por currículo e muitas vezes até pelo jeito de se comunicar, usando o critério de eliminação pela forma e formato do currículo, nunca seriam encontrados. E olha que tem muito Soldador muito mais bem remunerado que Inúmeros Selecionadores. Este é só um exemplo de função difícil de se encontrar. Temos também que tomar muito cuidado com excelentes curriculos, mas que na prática não passam de "excelentes currículos". O processo de seleção, muitas vezes, o selecionador está muito mais desesperado em encontrar o candidato que o contrário, chegando também a cometer verdadeiros absurdos. Abraços a todos. Alessandro Siqueira

Thiago Bizarria em 28/03/2010:
Infelizmente isso é o que acontece em nosso país. Faço seleção de pessoas para entrevistas na empresa onde trabalho, e muitas vezes ao olhar o candidato, temos a percepção imediata de que falta a postura profissional nas pessoas. No mundo em que vivemos, como pode uma pessoa participar de uma entrevista sem ter documentos, comparecendo de chinelo, bermudas e falando gírias. É uma decepção que mata qualquer profissional que tenha a função de seleção de pessoas. Creio que as escolas (públicas e privadas) deveriam ter no último ano do ensino médio, a matéria RH em seu currículo, pois o despreparo é muito grande para os jovens. Se é grande para os jovens, imaginam para aqueles que não frequentas escolas ou faculdades a décadas? Esta é minha opinião. Atenciosamente... Thiago Bizarria

Alessandra em 28/03/2010:
A realidade é bem essa, as pessoas no desespero saem enviando e-mail a todos sem distinção como se fosse uma " corrente ". Currículos mal redigidos mostram a precariedade na educação do país.

 
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