Por Carlos Alberto Poleti para o RH.com.br 
Assuntos como globalização, revisão de estruturas, ganhos de produtividade, terceirização, quarteirização e outras tantas técnicas que vêm sendo introduzidas nas organizações, demonstram que, cada vez mais, o volume de trabalho e a exigência de qualificação dos profissionais vêm sendo elevados, com o único objetivo de alcançar melhores resultados para garantir a sobrevivência das empresas na selva da concorrência.
Apenas nos esquecemos de observar um pequeno detalhe: qual o limite individual para absorção de mais trabalho, mais responsabilidade, mais conhecimento, de forma que ainda reste mais um tempinho para apresentar um resultado acima do esperado, uma quebra das metas estabelecidas, transformando-se na nova meta a ser ultrapassada no próximo período?
Falamos em limite? Sim! Cada pessoa, na sua individualidade, apresenta níveis diferentes de capacidade para absorver informações, processá-las e transformá-las em resultado. Não há forma ou jeito de padronizar essa capacidade, exigindo a mesma quantidade de trabalho, no mesmo tempo, com níveis de qualidade idênticos, como se estivéssemos tratando com um equipamento de produção automatizada. Até mesmo os equipamentos têm um limite, uma capacidade nominal de produção que, se exigida além da capacidade, certamente apresentará resultados insatisfatórios e falhará, pois seus componentes não foram projetados para trabalhar acima de seus limites.
Esse mesmo conceito de limite deve ser lembrado quando tratamos de estabelecer metas e objetivos para as pessoas, pois o nosso "equipamento" também está projetado para atender a uma determinada demanda e a uma certa quantidade de esforço. Quando passamos a exigir que esses limites sejam ultrapassados, na verdade estamos forçando uma situação que trará conseqüências imprevisíveis e completamente distintas de uma pessoa para outra.
Os organismos internacionais que acompanham as relações de trabalho vêm trazendo a público um assunto que até muito pouco tempo era totalmente desconhecido e, ainda hoje, causa um certo descaso por parte de algumas empresas: o assédio moral.
O assédio moral pode ser traduzido como a pressão exercida pelos representantes da administração das empresas ou mesmo pelos próprios acionistas, em um nível considerado acima da capacidade de determinadas pessoas, que por se encontrarem em situação desfavorável na relação contratual, pois dependem de manter o emprego para garantir sua subsistência, acabam sucumbindo a essa pressão através de sintomas como hipertensão arterial, estresse, desequilíbrio emocional, depressão e outras patologias de ordem psicológica.
À medida que se reduzem as oportunidades de emprego e aumenta a oferta de profissionais no mercado, pouco importa que uma situação de afastamento venha a causar algum tipo de dano à empresa, pois esse elemento afastado é rapidamente substituído e não notamos a ocorrência.
Garantimos dessa forma a solução do problema da empresa, porém não nos damos conta de que uma pessoa foi vítima de uma ação que a levou a uma condição de doença que, dependendo do nível atingido, poderá tornar-se crônica, impedindo mesmo que o profissional retorne ao ambiente de trabalho.
Sempre se atribui às empresas um certo papel social e, cada vez mais, percebemos que essa função vem perdendo espaço, pois ao contrário de contribuir para evolução da sociedade, as empresas estão produzindo cidadãos doentes que normalmente deverão buscar os recursos públicos para o seu tratamento, uma vez que também não mais poderão utilizar-se do seguro oferecido pela empresa.
Trabalho além do horário normal provocado pelo aumento de volume, exigência pela superação constante de metas e objetivos, pressão pela apresentação de resultados absolutamente sem erros, formas autoritárias de tratamento das pessoas, desrespeito ao papel que cada um desempenha na organização são as formas mais comuns e mais evidentes de provocar o assédio moral, sempre sob a justificativa de que o homem precisa ser pressionado para obter melhores resultados.
Não estaria na hora de começarmos a nos perguntar se ao melhorar as condições de trabalho, os relacionamentos, a divisão racional do volume de trabalho e o tratamento mais respeitoso aos profissionais, não estaríamos garantindo um resultado ainda melhor daquele que obtivemos sob pressão contínua?
Seria a resistência à pressão uma característica do ser humano ou, ao invés disso, uma criação daqueles que vêem nas pessoas apenas mais um recurso à sua disposição?
Palavras-chave: | estresse | assédio |



