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21/08/2006
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Violência perversa no trabalho

Por Laura Pedrosa para o RH.com.br

No final, o que importa para todo ser humano é ser feliz. E o que significa ser feliz? Para Larousse (2001), a palavra feliz significa: afortunado, próspero, satisfeito, contente, abençoado. É o esforço contínuo, diário, para conquistar o estado pleno de bem-estar e satisfação em todas as dimensões do sujeito. Essa busca perpassa pelo ambiente de trabalho, o convívio familiar e a saúde (biopsicossocial), dentre outros aspectos.

Com o advento da globalização, o mundo do trabalho e os modos de produção vêm passando por mudanças e crises profundas que impactam as organizações e seus trabalhadores. Dentre os inúmeros impactos, está a possibilidade de um ambiente fértil para o abuso de poder "ou diria poder do abuso"? - denotados no sofrimento do trabalhador, vítima de assédio moral no trabalho e em possíveis repercussões na família.

Também conhecido como hostilização no trabalho ou violência psicológica, o assédio moral é um fenômeno que perpassa toda a história das relações de trabalho. Dentre alguns conceitos propostos, Barreto (2004) o defini como: "a exposição de trabalhadores a situações vexatórias, constrangedoras e humilhantes durante o exercício de sua função, de forma repetitiva, o que caracteriza uma atitude desumana, violenta e antiética nas relações de trabalho". Trata-se de uma conduta, segundo Andreucci (2004), "capaz de destruir um ser humano sem que haja uma gota de sangue sequer e sem qualquer gesto brutal contra ele, utilizando apenas o que se convencionou chamar de violência invisível".

Contudo, nem todas as situações conflituosas ocorridas no ambiente de trabalho podem ser consideradas assédio moral. Mesmo ações abusivas, perversas e humilhantes, porém pontuais, não podem ser classificadas como assédio, uma vez que precisam ocorrer com certa freqüência e ser direcionadas com exclusividade à vítima. A dificuldade em considerar que uma pessoa está sendo vítima de assédio moral está na subjetividade do comportamento, tanto da vítima quanto do agressor.

É preciso apontar, portanto, o que não é assédio moral, para que se possa clarificar e prevenir a reprodução desse fenômeno no contexto de trabalho. Não se considera assédio moral, independente da semelhança de suas conseqüências: dificuldades de relacionamento; agressões pontuais; má condição de trabalho; imposições profissionais; comportamento autoritário e até desumano do gestor, desde que seja uma conduta comum a todos os subordinados.

Destarte, o trabalhador vitimado por comportamentos perversos de assédio sofre violência sutil e ameaças indiretas, veladas, que, por ser superficial, muitas vezes não se vê, provocando na vítima a incapacidade de identificar o abuso. Nesse momento, sua conduta é considerada inadequada, iniciando uma queda em sua auto-estima e, conseqüentemente, no desempenho de suas atividades profissionais.

Posteriormente, face ao sofrimento continuado vivido no ambiente de trabalho, as conseqüências poderão ser refletidas em doenças psicossomáticas e, posteriormente, nos impactos danosos ao convívio familiar da vítima.

"Não se morre diretamente de todas essas agressões, mas perde-se uma parte de si mesmo. Volta-se para casa, a cada noite, exausto, humilhado, deprimido", diz Hirigoyen (2002). O adoecer biopsicossocial do sujeito agredido vem repercutir no convívio familiar, tornando todos os seus membros vítimas potenciais dessa violência perversa. Uma vez que o trabalho forma a identidade do indivíduo, o sofrimento vivido no ambiente de trabalho vem provocar, em sua família, desajustes, outras formas de violências, uso abusivo de drogas lícitas e ilícitas, perdas financeiras, podendo culminar até na separação do casal e desestruturação familiar.

Ainda na construção da identidade, o sentido subjetivo do trabalho sofre impacto e vai modificando-se no decorrer do ciclo profissional e, mais fortemente, frente ao sofrimento em razão de violência no trabalho. O significado do trabalho identifica-se com a própria vida e se constitui de percepções determinadas socialmente. Esse conjunto de signos sociais constitui-se num contexto de interações que envolvem a auto-realização, a independência, a auto-estima e a sobrevivência.

Assim, a importância do trabalho está muito além do aspecto econômico que garante a sobrevivência do indivíduo e de seus dependentes. Assume um simbolismo amplo e profundo, perpassando pela construção do sujeito de direito, possuidor de identidade, que o diferencia e o distingue entre tantos e garante o respeito dos seus entes mais significativos. E esses significados vão refletir diretamente na auto-imagem que este trabalhador constrói e seu papel como provedor familiar.

Hirigoyen (2002) e Sarti (2003) retratam vivências de sofrimento com repercussões na dinâmica familiar, presentes nos sentimentos de humilhação dos trabalhadores ao retornarem aos seus lares exaustos, deprimidos, cansados, após uma jornada de trabalho precária. Despeja na família tudo o que é possível, e muitas vezes transforma seu local de descanso em palco de frustrações e conflitos, ocasionando inclusive desarmonia.

Abaixo estão transcritas algumas das falas de trabalhadores vítimas de assédio moral no trabalho na cidade do Recife/PE, colhidas para dissertação de mestrado. Ressalta-se que todos os entrevistados receberam na Justiça do Trabalho indenização por dano moral cujo nexo causal foi caracterizado pelas más condutas de seus chefes, reproduzidas por alguns colegas, e os danos à saúde desse trabalhador vitimado. Em suas falas evidenciam o assédio moral no trabalho e seus sintomas; o significado do trabalho para esse trabalhador vitimado; e as vivências de sofrimento e repercussões na dinâmica familiar.

"A gerente disse que não tinha atividade para mim e me entregou a carta de demissão... a lei me garante o emprego, em razão da LER... Eu passava o dia lendo jornais e revistas... Eu não tenho trabalho". (Ana, 37 anos, graduada)
"Passei nove meses sem nenhuma atividade... Questionei a nota baixa na avaliação desempenho. Alegou que o meu trabalho era uma porcaria... Também não me disse o que eu tinha que melhorar... ele (chefe) cruzava comigo no corredor e me encarava, mas não me dirigia a palavra". (Francisco, 48 anos, pós-graduado)
"Eu era gerente e não tinha nenhuma atividade, nenhuma responsabilidade. Não tinha acesso a computador... tomaram as chaves... Acho que um dos motivos da perseguição é porque assumi que sou homossexual". (Pedro, 44 anos, nível técnico)
"Trabalho faz parte da vida. Você sem o trabalho não se completa. É necessário ao bem viver, se desenvolver. Sua integração com as pessoas. Trabalho e vida são inseparáveis. É crescer, desenvolver". (Francisco, 48 anos, pós-graduado)
"Trabalho me dá prazer, uma realização. É muita, muita satisfação. O meu trabalho é ligado muito à minha personalidade, me sinto mais potente, realizado, satisfeito... Eu senti que minha imagem... foi prejudicada... Eu tinha um nome e de repente foi tirado, foi sujado. Tirou o meu poder". (Mateus, 58 anos, pós-graduado)
"Na própria família era difícil para as pessoas entenderem o que estava acontecendo comigo, exceto meu pai... Também afetou no meu noivado. Eu só falava de problema... Na época a gente estava construindo uma casa?. (Isabel, 37 anos, graduada)
"Sou arrimo de família... Tive um enfarte (novo enfarte) durante essa fase... Depois de tudo nosso padrão de vida reduziu em 50%... Perdi o prestígio que o trabalho oferece". (Pedro, 44 anos, técnico nível médio).
"Me isolei da minha família... Ele (marido) notava que eu não tinha interesse nele. Não dava atenção a ele, aos meus filhos. Eu não tinha paciência para ouvir histórias de menino... O que eu queria era dormir". (Madalena, 41 anos, Mestrado)

Essas descrições são relevantes por ratificarem, em seus indícios, os propostos para descrever o fenômeno de violência no trabalho. Apontam também as dificuldades de relacionamento e condutas éticas não respaldadas nos direitos humanos no trabalho propostos pela OIT e que são capazes de gerar tamanho sofrimento no trabalhador que compromete sua saúde e causa impacto na sua família.

É evidente ainda que o trabalho, em condições ideais, tem significado para os participantes que fortalece sua auto-estima, gera reconhecimento e dá sentido à própria existência.

Denota-se, por fim, que o sofrimento vivido em razão da violência perversa de que se é vítima, não se encerra na jornada de trabalho; repercute de forma indelével no lugar que cada sujeito ocupa em sua família.

Esse artigo faz parte da dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Todos os nomes são fictícios, retirados da Bíblia Sagrada. Os nomes dos agressores, quando houver, são homônimos aos personagens perversos das histórias infantis.

Palavras-chave: | assédio | moral | violência |

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COMENTÁRIOS (1)
Amanda Maria Praça Brayner em 02/11/2009:
Prof. Maravilhoso seu texto. Ele me fez ter lembranças de um passado traumático de uma grande empresa onde trabalhei. Tem muita razão em afirmar as doenças psicosomáticas que o assédio provoca, pois eu chegava em casa cansada, só dormia durante o dia, exausta, humilhada, e hoje tenho sindrome de pânico.

 
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