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10/04/2006
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Demissão: momento de conversa

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Como na maioria dos relacionamentos, a separação sempre é um processo que deixa cicatrizes. E isso não está restrito apenas às relações amorosas. No ambiente de trabalho um processo de demissão, quando não é bem conduzido, pode gerar instabilidade tanto em quem está sendo desligando quanto nos profissionais que ficam. Dentre as alternativas para minimizar o impacto da demissão, as empresas podem recorrer à entrevista de desligamento - um recurso que pode auxiliar os dois lados: o funcionário e a empresa.

Para quem está deixando a organização, essa entrevista pode ser o momento de descobrir, por exemplo, onde errou, o real motivo de sua demissão ou quais competências poderia ter desenvolvido e não o fez. Para a empresa, é a oportunidade de ouvir o funcionário e saber que imagem ele está levando daquele ambiente corporativo ou, então, qual a sua opinião sobre o clima organizacional, os benefícios, os métodos de avaliação de desempenho, entre outros. Em entrevista concedida ao RH.com.br, a psicóloga Lise Steigleder Chaves, da CC&G Consultores Associados, afirma que a entrevista de desligamento pode ser a chave para identificar até mesmo os fatores que geram o absenteísmo ou o turnover. Especialista em psicologia organizacional e do trabalho, ela comenta como o processo pode ser conduzido, qual o momento mais propício para realizá-lo e o que deve ser evitado. Confira a entrevista e boa leitura!

RH.COM.BR - Uma Gestão de Pessoas bem estruturada, deve incluir a prática da entrevista de desligamento?
Lise Chaves - Só o fato de usarmos a palavra gestão para designarmos a atuação em Recursos Humanos, já implica em um patamar de comprometimento com as pessoas muito maior do que num sistema burocrático, até porque Gestão de Pessoas é uma ação que permeia todo o negócio. Neste caso, a entrevista de desligamento mostra-se mais uma das possibilidades de revelar este comprometimento, além de traduzir uma relação de respeito e responsabilidade por aquele que, independente de quem foi a iniciativa, nos deixa.

RH - Quais os principais objetivos da entrevista de desligamento?
Lise Chaves - Conhecimento, este é o principal motivo. Saber como aquela pessoa que está desligando-se vê a empresa e seus diversos processos e também como ela avalia seu período de permanência naquele negócio. Outro objetivo da entrevista de desligamento, não menos importante do que o primeiro, é dar suporte e orientação para a pessoa. Especialmente quando alguém é desligado, há um fluxo de emoções muito complexas, que passam pela raiva, frustração e desprezo.

RH - A entrevista de desligamento deve ser realizada logo após a demissão do funcionário ou existe um momento mais apropriado para essa ferramenta ser aplicada?
Lise Chaves - A entrevista de desligamento deve ser aplicada não mais do que uma semana após o afastamento do trabalho, e nunca imediatamente após o desligamento. Geralmente, é marcado um dia para que a pessoa busque seus documentos e faça os acertos legais com o empregador. Este é um bom dia para aplicar a entrevista.

RH - A entrevista de desligamento deve ser usada tanto em situações de afastamento voluntário do colaborador como nos de demissão conduzida por iniciativa da empresa?
Lise Chaves - Sem dúvida. Quem pede para sair de uma empresa não faz isto por acaso. Isso pode ocorrer por melhores oportunidades de carreira, maiores desafios, salário, benefícios, clima e cultura organizacional, estilo de liderança. Há, enfim, um número grande de motivos que levam alguém a querer sair de uma empresa. Por outro lado, é a oportunidade da empresa pontuar os motivos do desligamento. As empresas não são em sua essência boas ou más, mas ter o descalabro de dizer que esta desligando aquela pessoa por reestruturação é de uma maldade sem fim, pois ninguém demite o melhor. E explico. De fato, em determinados momentos, as empresas precisam cortar custos fixos e decidem demitir pessoas, mas claro que há critérios nesta escolha e, geralmente, eles se referem a desempenho e comportamento. Se aquela pessoa nunca foi alertada para as dificuldades que apresentava é o momento certo para dizer o que motivou a empresa a demiti-la. É uma grande oportunidade para que o funcionário se avalie e ao buscar um novo emprego, possa cuidar para não repetir os mesmos erros e crescer profissionalmente.

RH - Que benefícios essa ferramenta proporciona à empresa e ao funcionário que está sendo desligado?
Lise Chaves - Via de regra para a empresa, além das informações obtidas, promove na pessoa a percepção de que ela não esta sendo jogada no olho da rua, mas sim que a empresa a respeita e a valoriza e que, portanto, tratar a empresa com igual respeito é interessante. Para o funcionário pode ser a oportunidade de manifestar suas opiniões sobre a empresa, a chefia e as políticas organizacionais adotadas. Apesar deste tipo de depoimento trazer certa dose de emoção, não podemos supor que será tendencioso. As pessoas tendem a ser maduras quando percebem que há respeito.

RH - Existe um padrão que possa ser usado na entrevista de desligamento ou cada empresa pode e deve desenvolver seu próprio modelo?
Lise Chaves - Existem muitos modelos em manuais de administração e de Recursos Humanos, mas com certeza cada empresa pode ter seu modelo. O interessante é que este momento torne-se suficientemente aberto e realizado por um representante da empresa, que seja percebido como confiável e amigável, mas que seja capaz de ser firme e não se identifique e se penalize pelo outro. Senão, o sofrimento será de ambos e isto não ajuda nem a pessoa desligada nem a empresa.

RH - A entrevista de desligamento deve ser realizada em um local específico como, por exemplo, numa sala reservada?
Lise Chaves - Na medida do possível deve ser realizada em um local reservado. Não precisa ser a portas fechadas, mas privacidade é fundamental. Respeito é fundamental e isto significa que o entrevistador estará disponível, não atenderá telefones, não sairá correndo da sala porque passou alguém com quem ele queria falar, não dirá nunca que o outro tem sorte porque agora esta livre daquela empresa ou que o outro, coitado, é uma vítima do sistema. Também, jamais deverá elogiar empresa como sendo maravilhosa, destacar os mil benefícios, o quanto os funcionários formam uma família ou que todos estão felizes em ver que a empresa, mais uma vez, fez a coisa certa. Bom senso, cortesia, respeito e condição de colocar limites são características de um bom entrevistador.

RH - A Sra. acredita que a falta de profissionais qualificados para conduzir a aplicação dessa ferramenta justifica a pouca utilização desse recurso no meio corporativo?
Lise Chaves - Se pensarmos em qualificação específica para este tipo de procedimento, sem dúvida que isto contribui para que muitas vezes se deixe de usar a entrevista como ferramenta. Mas um outro aspecto importante é que por sermos excessivamente relacionais - o modelo brasileiro de gestão passa pelas relações interpessoais com seus desdobramentos mais nefastos aí inclusos como, por exemplo, o nepotismo - há de modo geral um constrangimento em se tratar do desligamento das pessoas. Isto resulta na empresa não ser clara quanto ao motivo do desligamento, colocando panos quentes, omitindo ou muitas vezes inventando desculpas esdrúxulas para se justificar, passa pela conduta protetora e sua conseqüente identificação com a "vítima" do desligamento. Perdemos a isenção de ânimo frente a um fato cotidiano e vivenciado por todas as pessoas - a rejeição. Quando um amigo afasta-se, quando terminamos uma relação, quando não somos convidados para uma festa, quando somos demitidos, estamos passando pelo mesmo processo. Só que muitas vezes, nós e os que estão à nossa volta não conseguimos lidar com isto de forma clara. O que acontece? A situação como um todo só cresce em sofrimento e aí é que falta capacitação para tecnicamente lidarmos com um evento cotidiano.

RH - A entrevista de desligamento deve ser conduzida apenas pelo profissional de RH ou também deve contar com a participação do superior de quem está desligando-se?
Lise Chaves - Na verdade, esta entrevista pode ser conduzida por qualquer profissional da empresa, desde que tenha maturidade e competência para dar suporte, ouvir e analisar as informações que recebe, sem mostrar-se compadecido ou prepotente. A questão do chefe imediato fazer esta entrevista é que emocionalmente ele é parte ativa deste processo e do outro lado da mesa está alguém para quem ele deu uma triste notícia. Não se pode esperar que os ânimos mantenham-se britanicamente sob controle. Melhor é que a entrevista tenha neutralidade e que a chefia também seja ouvida, mas em separado.

RH - Quais os cuidados que devem ser tomados durante uma entrevista de desligamento?
Lise Chaves - Não se deve em hipótese alguma emitir juízo de valor. O ideal é que se façam perguntas claras que requeiram respostas igualmente objetivas, mas que ao serem dadas com emoção encontrem um interlocutor sereno, disponível e capaz de apontar dados e fatos que possam amenizar tal emoção, sem desmerecê-la.

RH - As perguntas de uma entrevista de desligamento devem ser abertas ou fechadas?
Lise Chaves - Deve haver um equilíbrio. Se for para obter respostas do tipo sim ou não, bom ou ruim, é melhor aplicar um questionário. Se for para "discutir a relação", é melhor encaminhar para um terapeuta. Esta é uma oportunidade para ambas as partes se avaliarem: quem está sendo desligado refletir sobre suas experiências, o que aprendeu e o que contribuiu, o que poderia ter aprendido e como foi seu desempenho. Para a empresa é uma chance para refletir sobre a percepção das pessoas a seu respeito, suas políticas e práticas, no que pode evoluir.

RH - Que questões ou assuntos a Sra. considera indispensáveis numa entrevista de desligamento?
Lise Chaves - Algumas questões práticas devem ser abordadas: o motivo do desligamento; as oportunidades que a pessoa teve de participar de cursos, por exemplo; sua avaliação dos benefícios; como ela percebe a empresa; seus planos e se for o caso, orientar como a empresa pode ajudá-la a buscar um novo emprego.

RH - O funcionário desligado tem o direito de se recusar a participar de uma entrevista de desligamento?
Lise Chaves - Sim, ele tem este direito. Primeiro, porque o profissional pode estar com muita raiva ou muito magoado. Segundo, porque ele pode estar muito aliviado em sair daquele ambiente, ou ainda porque acha que não tem o que dizer, até porque algumas vezes não tem mesmo.

RH - Através da entrevista de desligamento, a organização pode, por exemplo, identificar os fatores que provocam o turnover ou o absenteísmo?
Lise Chaves - Sem dúvida. Imagine uma empresa perdendo profissionais, nos quais investiu tempo e dinheiro, porque seus salários estão aquém do que o mercado oferece e a empresa sem esta informação. Ou o número de faltas pode trazer prejuízos à produtividade, porque o plano de saúde exige que a pessoa seja atendida por ordem de chegada e isto significa perder horas na recepção de um consultório médico.

 

Palavras-chave: | Lise Chaves | Entrevista de Desligamento | demissão |

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