Por Jerônimo Mendes para o RH.com.br 
Refletir a responsabilidade social nas empresas requer compreensão e revisão de conceitos, sobretudo prática do comportamento socialmente responsável, não apenas em relação à comunidade e ao ambiente externo, mas também ao ambiente interno da organização.
A questão a ser avaliada é a razão pela a maioria das empresas ignora a responsabilidade social no próprio ambiente de trabalho, onde boa parte dos colaboradores sofre as conseqüências de uma política mesquinha, nada solidária, saindo e voltando para casa repletos de incertezas em relação ao cargo ou ao posto de trabalho ocupado na organização.
Ainda que o ambiente corporativo seja o caos, premiar a comunidade e apoiar projetos sociais é visto como mais vantajoso do ponto de vista comercial, ético e solidário. Por esses e outros motivos, inclusive interesses pessoais dos próprios líderes, muitas empresas esforçam-se para participar de campanhas que acabam projetando o nome da organização.
Solidárias nas dificuldades, ONG's e outras instituições agarram-se ao patrocinador sem levar em conta o que ocorre no ambiente interno da organização, onde os empregados são vítimas de uma guerra injusta e silenciosa, cujas baixas não pormenorizadas figuram apenas nas estatísticas globais do desemprego.
As baixas no mercado de trabalho formal provocam a exclusão social, temporária ou definitiva, de três a quatro pessoas, considerando o número médio de componentes da família brasileira.
As empresas, por sua vez, buscam a participação em projetos sociais, como forma de amenizar o impacto do estrago social promovido dentro de si mesmas embora a natureza do capitalismo não reflita essa preocupação.
Apesar da mudança na composição da renda familiar, por conta da necessidade de sobrevivência e aumento do trabalho informal, significa que cada posto de trabalho eliminado nas empresas abala a esperança e a perspectiva de outros envolvidos no processo.
A extinção dos empregos e a proliferação do trabalho informal é o caos para o desenvolvimento econômico de qualquer país. Tanto a informalidade como as empresas legalmente constituídas sabem que a carga tributária no Brasil é indigna, portanto, valem-se de todos os recursos para fugir do famigerado leão, devorador de sonhos e planos.
Por conseqüência, o país arrecada menos, a sonegação aumenta e os poucos sobreviventes do trabalho formal se lamentam, sem ter como fugir do desconto obrigatório do imposto de renda na folha de pagamento, para suprir o apetite insaciável da dívida pública.
No capitalismo, eliminar postos de trabalho e participar de projetos sociais não difere muito na essência e na prática. Ambos têm finalidades semelhantes: enxugar custos e amenizar o impacto da carga tributária no resultado final do balanço. Lucro e balanço social são indispensáveis na demonstração dos resultados, por obrigação e necessidade de perpetuação.
Para muitas empresas, a responsabilidade social é um exame de consciência, o pagamento dos próprios pecados em relação ao desemprego. De certa forma, a participação em projetos sociais ameniza a responsabilidade e o impacto das estatísticas que ela mesma ajudou a construir quando a alternativa mais cômoda foi a redução do quadro.
É difícil acreditar na iniciativa humanitária das empresas, mas há como separar o joio do trigo. Existem empresas socialmente responsáveis ao redor do mundo, algumas por força da legislação, outras pelo caráter obstinado e benevolente de seus fundadores.
O mundo é repleto de histórias de empreendedores que não fazem do lucro o único sentido de realização na vida, mas o instrumento que lhes permite devolver parte do conforto e segurança oferecidos a eles em abundância pela própria sociedade.
Qualquer profissional tem em mente pelo menos três empresas que mais admira, onde teria enorme prazer e orgulho de trabalhar, todas éticas e socialmente responsáveis.
Por certo, nenhuma delas conquistou lugar no mercado apenas pela qualidade dos seus produtos e sim pelas atitudes de respeito no relacionamento com os acionistas, empregados, clientes, fornecedores e, principalmente, o meio ambiente.
A empresa que oferece aos empregados um código de ética expressando tudo o que deve ou não ser praticado não considera que eles esperam a mesma reciprocidade quando as dificuldades ameaçam a relação profissional, motivo pelo qual as frustrações afloram antes mesmo do primeiro diálogo entre patrão e empregado.
Dessa forma, a dúvida entre o que se prega e o que se pratica é um dos maiores focos de desgaste no relacionamento, pois é difícil aceitar o fato da empresa gastar rios de dinheiro para promover o bem fora dela e ao mesmo tempo não investir para o bem dos próprios empregados.
Antes de optar pelos projetos externos, as empresas deveriam fazer uma pesquisa interna para apurar o nível de satisfação dos empregados. Se o índice for favorável, aí sim, ela deve partir para algo mais ambicioso com ajuda dos próprios colaboradores, caso contrário, o projeto social mais importante a ser adotado encontra-se no seu próprio ambiente.
Talvez por essa razão poucas empresas se arrisquem a consultar os empregados. E talvez por essa mesma razão seja mais fácil investir em projetos sociais externos do que internos.
Palavras-chave: | responsabilidade | social |



