Por Rute Paixão dos Santos para o RH.com.br 
O filme "O Curioso Caso de Benjamin Button", interpretado por Brad Pitt, retrata a história de Benjamin que nasceu de forma contrária à natureza humana, pois ele tinha a aparência e doenças de uma pessoa em torno dos 80 anos no corpo de um bebê. Ao invés de envelhecer com o passar do tempo, Benjamin rejuvenescia e cresceu com uma serenidade e maturidade dificilmente vista nos jovens da nossa atualidade.
Assistindo ao filme, pude refletir que a maioria das organizações considera como fim de carreira as pessoas de 65 anos de idade, isso para quem está ativo no mercado de trabalho, porque quem está fora do mercado e quer uma recolocação e se encontra beirando os 40 anos de idade é um grande motivo de preocupação.
Já no filme, Button consegue seu primeiro emprego no barco de reboque com uma idade avançada. O interessante é que por ter crescido em um asilo no meio de pessoas mais velhas, ele tem serenidade, sabedoria e tolerância com as adversidades da vida. Ele demonstra um comprometimento, visão crítica e responsabilidade nas atividades desenvolvidas na sua vida diária e no seu ambiente de trabalho. São justamente estas qualidades que as pessoas da terceira idade, na sua maioria, demonstram no "mundo" do trabalho.
Existe uma história na Bíblia bem interessante é o caso do rei Roboão que não ouviu os anciãos da sua época, preferindo ouvir os conselhos dos jovens que andavam com ele na sua infância. Vale ressaltar que a equipe formada pelos anciãos foram os mesmos que viveram na presença do rei Salomão, o pai de Roboão. O rei Salomão foi considerado o homem mais sábio de Israel. Mesmo assim, Roboão preferiu ouvir os conselhos dos mais jovens e não foi feliz na sua escolha. Quem quiser conferir a história na íntegra é só ler a Bíblia em 1 Reis 12.
No filme, o diretor retrata muito bem a questão do preconceito com essas pessoas de idade avançada, ao mostrar que elas viviam separadas da sociedade e excluídas do ambiente de trabalho. Contudo, não deixavam de trabalhar com aquilo que gostavam no asilo.
No mercado de trabalho atual as pessoas da terceira idade são consideradas uma "carta fora do baralho", pois são analisadas como "velhas demais para o trabalho". Se nós jovens fossemos menos egoístas, poderíamos aprender muito com as pessoas ditas "mais velhas". Poderíamos aprender serenidade, paciência, tolerância que eles transmitem e juntar esse aprendizado à nossa vitalidade por natureza. Na realidade deveríamos realizar uma troca de aprendizagem, no mundo onde se valoriza a diversidade.
Segundo Paulo Freire nós somos seres humanos inacabados: "gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado, mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Está é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado". Então, por que a maioria de nós tem este preconceito com os idosos? Será que a maioria pensa que vão pular esta etapa da vida? Que não ficarão idosos? Que não sofrerão a exclusão?
A pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que 30% da população brasileira, até 2050, terão mais de 60 anos. Nossa população e, consequentemente nossa força de trabalho, está passando por um processo de envelhecimento em ritmo muito acelerado. Daqui a aproximadamente 40 anos, quase 30% da população do país terá acima de 60 anos e a expectativa de vida deverá chegar aos 81 anos. Com essa possibilidade as organizações deveriam começar a pensar em um período prolongado para os idosos.
Quando estava redigindo este artigo assisti uma matéria apresentada pelo Globo Repórter sobre a terceira idade que serve para ratificar o índice do IBGE acima apresentado. Fiquei encantada como os idosos estão vivendo mais tempo e com a qualidade de vida deles, principalmente com a curiosidade de Maria Enedina da Silva que irá completar 101 e frequenta a escola na esperança de sair do índice dos analfabetos. Outro caso que achei fantástico foi do empresário Sylvio Coelho. Com 91 anos ele diz que mesmo com toda a experiência vivida pelo longo caminho da sua vida - ele ainda não sabe nada! E um ancião cheio de disposição que não dispensa a tecnologia.
As organizações deveriam aproveitar as experiências dos anciãos que ainda mantém a curiosidade em sua essência. Como o nosso educador Paulo Freire já dizia "Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo, nem ensino". Enquanto o idoso estiver praticando as suas atividades e produzindo, é propício que as empresas invistam nessa troca de aprendizagem. A geração X (é um termo usado para descrever uma geração de pessoas que nasceram aproximadamente entre 1965 a 1980) que ainda tem muito que nos ensinar, e uma geração não deve ser anulada por completo.
Muitas empresas aderem à prática da diversidade quando incluem mulheres no quadro de lideranças, contratam homossexuais, inclusão dos portadores de necessidades especiais, de negros e de idosos em seu quadro funcional. A cultura da diversidade está em alta, mas o preconceito também. Hoje o mercado de trabalho está à procura de jovens considerados como a geração Y (geração da internet, os nascidos após 1980) que querem as coisas pra já. Uma geração imediatista, familiarizada com o mundo globalizado, internet, blogs e SMS e que estão distantes dos relacionamentos interpessoais com ênfase na empatia.
E o que vamos esperar da nova Z (os nascidos após anos 90) - uma geração silenciosa que está sempre utilizando fones de ouvidos, que não sabe escutar o outro e não tem expressividade na comunicação verbal? Apesar da rapidez de pensamento e da criatividade essa geração deixa de dar valor as coisas com facilidade como acontece com os avanços tecnológicos.
Da forma que as gerações Y e Z estão levando a vida acabaremos em um mundo sem ética, com os valores invertidos, solitários, com muita informação e pouco conteúdo. Infelizmente, Button no filme morre como um bebê que esqueceu todos os valores e os princípios aprendidos no decorrer da vida. E esse quadro apresentado na ficção poderá ocorrer com as nossas gerações Y e Z que vivem a curto prazo, e distante dos relacionamentos interpessoias, apesar de terem uma significativa quantidade de amigos virtuais. As lições que aprendi com este filme são: a valorização da convivência e a aprendizagem trocada com os anciãos. E esse modelo poderia ser copiado pelas organizações.
Palavras-chave: | cidadania | terceira idade | mercado de trabalho |
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