Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 
No Brasil, a Lei de 8.213/91, também conhecida como a Lei de Cotas, estabelece que organizações a partir de 100 profissionais reservarem 2% do quadro funcional para pessoas que tenham algum tipo de deficiência. Mas para cumprir essa determinação as empresas precisam, no mínimo, terem diretrizes internas claras e que assegurem a essas pessoas o direito de desenvolverem ou aprimorarem competências técnicas e comportamentais.
Na Novartis, empresa fundada em 1996 e que surgiu da fusão entre a Ciba-Geigy e a Sandoz, a contratação de profissionais deficientes ganhou um formato que hoje serve de exemplo para outras organizações. De acordo com Luiz Alberto Bueno - gerente de Recrutamento e Seleção, o Programa de Inclusão de Pessoas com Deficiência da Novartis ganhou impulso de 2003 para cá, baseado no Programa de Diversidade da companhia que possui seis pilares de sustentação: estilo de gerações, orientação sexual, religião, raça, contratação de deficientes, e mulheres. Toda essa base tem como proposta fortalecer a diversidade no ambiente organizacional. Sediada em Basiléia, na Suíça, as empresas do Grupo Novartis empregam cerca de 100 mil pessoas, em 140 países ao redor do mundo.
Ao acreditar que a contratação do diverso traz conhecimentos e vivências que agregam valor ao negócio, a partir do momento em que um profissional com deficiência ingressa na Novartis, seja essa qual for - visual, auditiva, física, mental ou múltipla - a empresa tem a consciência de que esse novo funcionário além do seu talento, trará ainda sua experiência de vida e de superação, bem como o conhecimento técnico e da aculturação - que pode ser percebida como o contato entre culturas distintas.
"Já tínhamos o business case e nos faltava dar um impulso maior. Em 2006, nos tornamos o primeiro setor da economia brasileira a firmar, juntamente com o Governo e os sindicatos, o Primeiro Pacto Nacional com vistas à contratação de profissionais deficientes. Depois de dado esse primeiro passo, outros setores da economia inspiraram-se no nosso pacto e abraçaram a iniciativa", comenta o gerente de Recrutamento e Seleção, ao acrescentar que o segundo fator que contribuiu para o êxito foi a criação do programa em si, com foco no cumprimento da Lei de Cotas, que foi apresentado à matriz da companhia, na Suíça, e abraçado pela alta direção.
Desafios - Para quebrar as barreiras que poderiam surgir, pois quando a empresa resolveu implantar o Programa de Inclusão de Pessoas, o grande desafio era lidar com o novo, o inesperado. A solução, então, foi contratar profissionais deficientes para atuarem em áreas de frente da organização como a de Recursos Humanos. Esses funcionários passaram a exercerem atividades direcionadas aos processos de Recrutamento e Seleção e de Administração de Pessoal.
"Por que tomamos essa iniciativa? Simples, porque qualquer profissional que chegasse à Novartis já seria atendido por alguém com deficiência e passaria a entender que isso não seria um impedimento para o profissional exercer uma atividade dentro da organização. O recém-chegado, já passaria a ser atendido por alguém que faz parte do Programa de Inclusão de Pessoas com Deficiência. Isso é algo perfeitamente normal dentro da nossa realidade", argumenta Luiz Alberto Bueno.
Efeito viral - Depois da contratação de deficientes para o departamento de RH, outros setores abraçaram a iniciativa e, através do programa, outros profissionais ingressaram em áreas como Finanças e Vendas. Quando os gestores passaram a ver que tudo funcionava, aconteceu o que a empresa chama de efeito viral. Ou seja, os líderes que ainda que não tinham vivenciado essa experiência, passaram a observar as outras áreas que já contavam com deficientes em suas equipes. Então, o interesse surgiu naturalmente e muitos passaram a questionar: "Como faço para contratar, para que minha equipe também participe deste programa?". Atualmente a Novartis conta com 95 profissionais que possuem algum tipo de deficiência e muitos desses colaboradores já estão na empresa há mais de seis anos.
A partir do momento em que as contratações dos deficientes aconteceram, a empresa passou a realizar adaptações na sua estrutura física, permitindo que os funcionários pudessem exercer suas atividades. "Cerca de 1.500 pessoas circulam diariamente pela empesa, todos os dias. Como não haveria tempo para parar todas as atividades e fazermos as adaptações, as reformas para atender esses profissionais ocorreram a partir do momento que as necessidades surgiram. Atualmente, a empresa oferece muito mais acessibilidade às pessoas que possuem algum tipo de deficiência e contamos, por exemplo, com caminhos adaptados para deficientes visuais, elevadores sonoros, banheiros adaptados, entre outros", cita Bueno.
Quando indagado se para implantar o Programa de Inclusão de Pessoas com Deficiência, a Novartis recorreu a parcerias firmadas com consultorias externas, o gerente de R&S afirma que toda a iniciativa foi conduzida pela área de Recursos Humanos, desde o mapeamento das competências dos integrantes do programa até a escolha de soluções que viabilizassem o dia a dia dessas pessoas, para que elas pudessem exercer suas atividades laborais. Vale ressaltar que o mapeamento das competências identifica qual tipo de deficiência será cabível para cada função.
A captação desses profissionais acontece pelo site oficial da empresa, bem como através do Programa de Indicações que permite aos demais funcionários da companhia apresentar pessoas que estão à busca de uma colocação no mercado. "No momento, cerca de 30 a 40% dos profissionais deficientes que atuam na empresa foram indicados à companhia por outros integrantes do programa, pois eles sabem que nossa proposta é séria e muito profissional", comemora Luiz Alberto Bueno, ao enfatizar que o tratamento que os funcionários com deficientes recebem é o mesmo dado aos demais colaboradores da organização.
Na Novartis, assegura o gerente de R&S, a proposta da empresa não é realizar filantropia ou assistencialismo. Se o colaborador não oferecer a entrega de resultados que se espera dele ou não se adaptar à cultura da companhia, por exemplo, ocorrerá o desligamento e a oportunidade será dada a outra pessoa. Ao ser contratado o integrante do Programa de Inclusão de Pessoas com Deficiência passa, como os demais talentos, por um processo de integração que tem duração de três dias. Caso o recém-contratado precise de um treinamento específico para aprimorar competências, a Novartis oferece.
Benefícios - Segundo Luiz Alberto Bueno, o Programa de Inclusão de Pessoas com Deficiência trouxe benefícios significativos para a organização. Ele destaca o fato dos gestores e dos colegas dos integrantes do programa afirmarem que a iniciativa tornou o ambiente de trabalho mais humano e aberto à diversidade. "Não vou afirmar que todo o programa tem sido flores ou que tudo sempre foi 100% redondo, pelo contrário. Sempre encontraremos pessoas que usarão a sua deficiência para ocupar a vaga de um talento que queira ter desenvolver sua carreira. Essa é justamente nossa proposta, oferecer oportunidades aos talentos e nunca praticar o assistencialismo", finaliza.
Palavras-chave: | Novartis | Luiz Alberto Bueno | Programa de Inclusão de Pessoas com Deficiência | diversidade |



