Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 
Não é difícil encontrar casos de mulheres que mesmo exercendo a função dos colegas masculinos, recebem uma remuneração inferior. Isso foi comprovado em uma pesquisa realizada, recentemente, pela Fundação Seade (Fundação Sistema Educacional de Análise de Dados) e o Dieese (Departamento Intersindical e Estudos Socioeconômicos). Os dados desse trabalho apontaram que a diferença de renda média entre mulheres e homens aumentou no mercado de trabalho. Para se ter uma ideia, só na Região Metropolitana de São Paulo, em 2008, o rendimento médio real por horas das mulheres ocupadas, sofreu uma pequena queda em relação ao ano anterior (-0,9%), ou seja, passou a corresponder a R$ 5,76.
Enquanto as estatísticas apontam uma distorção salarial entre os sexos, há organizações que acreditam que a discriminação entre homens e mulheres pode e deve ser uma "carta fora do baralho". Na Braspress, por exemplo, empresa de encomendas urgentes, a adoção de salários iguais entre homens e mulheres tem sido vencida. A organização quebra preconceitos e contrata motoristas do sexo feminino para atuarem em um reduto e trabalho predominantemente masculino: o transporte rodoviário de cargas (TRC).
Essa postura da organização não é recente, pois foi no ano de 1999 que as primeiras 10 mulheres foram contratadas para o TRC - período em que apenas os homens dirigiam caminhões. Atualmente, a Braspress conta em seu quadro funcional com 480 motoristas, sendo 171 do sexo feminino e no contexto geral de 3.712 colaboradores, cerca de 30% dos cargos são preenchidos por mulheres. A matriz da organização está localizada em São Paulo/SP e possui filiais nos Estados de Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Sant Cataria, Sergipe, São Paulo, Tocantins, além do Distrito Federal.
No início, a contratação de motoristas do sexo feminino foi considerada uma ação de marketing. De acordo com Milton Braga, gerente Nacional de Recursos Humanos da empresa, naquela oportunidade o diretor-presidente e fundados da Braspresse, Urubatan Helou teve a sensibilidade de perceber que o chamado "sexo frágil" tinha tanta capacidade quanto os homens para atuar no setor operacional, pois elas já haviam conquistado o departamento administrativo-financeiro da companhia.
"Os salários são absolutamente iguais. Temos um Plano de Cargos, Salários e Carreira, onde em nenhum momento fazemos qualquer distinção nesse sentido. Salários e oportunidades são absolutamente iguais", assegura Braga, ao destacar que no setor operacional de São Paulo, por exemplo, o quadro feminino de motoristas representa 52% do efetivo.

Benefícios - Quando questionado sobre os benefícios de valorizar a contratação de mulheres, o gerente nacional de RH comenta que o dia-a-dia das atividades mostrou que os benefícios para a organização foram desde o incentivo ao aumento da produtividade até a melhoria da capacitação profissional no setor de transporte e o mais importante foi a abertura de um novo mercado de trabalho para as mulheres. Os controles internos da organização mostraram, por exemplo, que as motoristas mulheres têm maiores cuidados operacionais com os veículos ao colaborarem para a conservação e consequentemente a manutenção dos caminhões. Além disso, elas se destacam pela educação nos relacionamentos com os clientes e no trânsito, bem como são pacientes. Esse conjunto de qualidades levou a redução de batidas e dos custos de manutenção, incluindo funilaria.
Para evitar que os homens vissem essa quebra de paradigmas como uma ameaça aos seus postos de trabalho, a empresa sempre adotou em sua cultura a filosofia de que competência não tem sexo. Com isso, a empresa incentiva a participação tanto de homens como de mulheres em nas atividades organizacionais, pois todos são profissionais. "Não privilegiamos sexo, cor ou religião, pois as regras são iguais tanto para homens como para as mulheres. O próprio dia-a-dia de nossas atividades e de nossa postura disseminou essa cultura por toda a organização, e de forma semelhante em todas as nossas 82 filiais espalhadas pelo país", frisa Milton Braga.
Outro fato observado com a contratação acentuada de mulheres foi sentido na rotina da empresa. O clima organizacional ficou mais descontraído, alegre, mas sem deixar de lado o profissionalismo e as responsabilidades de cada colaborador.
Treinamento - Ao contratar as funcionárias para o cargo de motoristas de caminhões, a Braspress estruturou um treinamento específico tanto para as que mulheres estejam realmente preparadas para se transformarem em profissionais do volante, como também para aquelas que não têm experiência anterior no setor. Para ser uma motorista, a empresa exige que as mulheres possuam as exigências mínimas necessárias para assumirem o cargo como: ensino médio, noções de informática, uma vez que a tecnologia embarca nos veículos da organização, além é claro, da Carteira Nacional de Habilitação - categoria D ou E.
Todo o investimento feito no sexo feminino tem sido positivo. Isso pode ser comprovado, uma vez que o desempenho apresentado por mulheres e homens é considerado o mesmo. "Bom destacarmos que temos encontrado em nossas motoristas um diálogo muito mais eficaz com os nossos destinatários, tanto comerciais como industriais", ressalta o gerente nacional de RH. Inclusive, ele comenta que o baixo índice de contratação de mulheres para cargos considerados masculinos, ocorre por puro desconhecimento da classe empresarial, pois já é comprovado que não há diferenças entre os sexos.
Saúde para elas e eles - Outra característica da Gestão de Pessoas da Braspress é a preocupação com a saúde dos funcionários, sejam elas ou eles. Nesse sentido, a companhia tem realizado com frequência programas de saúde gratuitos. Dentro dessas ações encontram-se: a prevenção de colo de útero para as mulheres; programas de acuidade visual para ambos os sexos; atividades específicas para os homens, através de palestras ministradas por especialistas; além de orientações sobre nutrição, alimentação adequada, uso de drogas, inclusive cigarro e bebidas alcoólicas, saúde bucal, dentre outras.
Mercado para homens e mulheres - De acordo com as informações levantadas pela pesquisa realizada pela Fundação Seape e Dieese, a taxa de participação das mulheres (proporção que participa como ocupada ou desempregada), sofreu um aumento. Passou de 55,1 para 56,4% entre os anos de 2007 e 2008. Todos os grupos de idades, escolaridade, raça e posição no domicílio foram afetados. Contudo, as mulheres entre os 50 e 59 anos, que possuem ensino fundamental completo, as conjugues e as filhas foram as que mais sentiram o impacto.
Índices de desemprego - Os dados coletados pelo estudo revelaram informações sobre o desemprego, influenciado pela crise econômica mundial. Entre as mulheres, a taxa passou de 17,8%, em 2007, para 16,5%, em 2008. Já para os homens, a queda foi ainda maior: de 12,3% em 2007, chegou a 10,7% no ano passado. O nível de ocupação, por outro lado, é maior entre as mulheres, principalmente nos setores de serviços e comércio. Um segundo estudo divulgado pelas duas entidades revelou que a presença de filhos não impede a participação feminina no mercado de trabalho, na maioria dos casos. A exceção ocorre apenas em relação a mães com crianças menores de um ano de idade.
Palavras-chave: | mulher | diversidade |



