Nas últimas semanas, escrevi sobre a questão teórica que se coloca sobre o nível em que ocorre a aprendizagem nas empresas, bem como suas implicações práticas. No momento, esses níveis estão sub-divididos em três estágios: individual, grupal e organizacional. Adotar um ou outro como referência pode trazer impacto no modelo de treinamento que a empresa adota.
Independente do nível onde ocorre a aprendizagem, um aspecto relevante aparece em todas as propostas: a aprendizagem sempre envolve pessoas.
Daí, vou chamar a atenção para outro aspecto relevante. Alguns autores, consultores e profissionais de RH chegam a defender processos como organizações de aprendizagem, inteligência corporativa, conhecimento organizacional como se estivessem acima das pessoas, como se as organizações tivessem tais capacidades por si só.
Será que isso é possível? Na minha opinião não é. Por uma questão simples: empresas não têm cérebros. Quando falamos em aprendizagem, inteligência, conhecimento, estamos falando de capacidades específicas do cérebro.
Por vezes até esquecemos, mas quando elaboramos um treinamento o que desejamos fazer, em última instância, é uma alteração relativamente duradoura no cérebro das pessoas que participam desse treinamento.
Portanto, não há aprendizagem sem cérebro. E daí surge uma outra questão: será que as pessoas envolvidas na formulação e administração de programas de treinamento têm o conhecimento necessário sobre o funcionamento do nosso cérebro para tornar o treinamento mais eficaz?
Já vi muitos profissionais de T&D que não se interessam por teorias da área de educação, ensino, aprendizagem, dentre outros temas correlatos. Aliás, a maioria não tem interesse por teoria alguma e diz que aquilo que se aprende na faculdade está longe da realidade do universo das empresas.
Mas será que está tão longe assim? E mais, será que nossas ações práticas não andam carecendo de uma boa base conceitual?
Na semana anterior, apresentei uma questão conceitual importante no âmbito da aprendizagem corporativa. Mas acredito que poucos dão valor a ela. Saber quem aprende (pessoas, grupos ou organizações) é essencial para traçar um plano de educação corporativa. Mas nem sempre se percebe o impacto disso nas ações cotidianas que fazemos.
Vou dar uma pista sobre como a interação teoria x prática é importante. Por exemplo, se pretendo realizar uma ação educacional com o objetivo de valorizar a comunicação face a face em todas as pessoas da organização, qual seria o meu público-alvo?
De imediato, se eu digo "todas as pessoas", pode-se imaginar que eu pretendo trazer todas as pessoas da empresa para um treinamento. Mas será necessário?
Se eu conheço as teorias sobre a aprendizagem corporativa e tenho uma linha clara de atuação a partir de uma das perspectiva de como as organizações aprendem, eu não vou treinar todo mundo, mas um determinado perfil de pessoas.
E qual seria o perfil ideal?
Nesse caso, depende de qual a abordagem você acredita que seja mais apropriada à sua organização. Vamos fazer um exercício sobre a aliança teoria x prática:
1) Aprendizagem Individual - Se acredito que as pessoas aprendem isoladamente e depois socializam tal aprendizagem, meu público para esse treinamento seria de representantes de todos os setores da empresa, nos mais diversos níveis e atividades. De preferência mesclando as turmas o máximo possível.
2) Aprendizagem Grupal - Se acredito na aprendizagem do grupo, já não devo mesclar pessoas numa mesma turma. Pelo contrário, devo formar turmas com grupos de atividades homogêneas. Essas pessoas devem experimentar, juntas, aquilo que devem aplicar no dia-a-dia.
3) Aprendizagem Organizacional - Se acredito que a aprendizagem irradia do topo, então meu público-alvo seria de gestores e líderes da organização, pois creio que a aprendizagem deles será disseminada para todos os demais níveis.
Eu fiz aqui apenas um exercício de "Teoria X" então "Público-alvo Y". Mas isso também vale para o objetivo, para o conteúdo, para a forma e todas as demais definições importantes para um treinamento dar certo.
O que mais poderíamos extrair dessa relação?